
A cidade do Rio de Janeiro parou nesta quinta-feira (25) para prestar a última homenagem à cantora, atriz e empresária Preta Gil, falecida aos 50 anos no último domingo (20), em decorrência de um câncer no intestino. O corpo da artista foi velado no histórico Theatro Municipal, no Centro da capital fluminense, em uma cerimônia marcada por emoção, homenagens e a presença de dezenas de figuras conhecidas da música, televisão e cultura brasileira.
Entre os presentes, estiveram artistas como Cláudia Abreu, Malu Mader, Taís Araújo, Thiaguinho, Xanddy Harmonia, Carla Perez, Péricles e o neto de Silvio Santos, Tiago Abravanel. O filho de Preta, Francisco Gil, integrante da banda Gilsons, e sua namorada, Alane Dias, também marcaram presença, visivelmente emocionados. O clima era de comoção, mas também de celebração da trajetória de uma mulher que, ao longo de duas décadas de carreira, rompeu barreiras com sua voz, sua arte e sua postura pública combativa e inclusiva.
Após a cerimônia, o corpo foi conduzido em cortejo a bordo de um carro do Corpo de Bombeiros até o Cemitério da Penitência, no bairro do Caju, zona portuária do Rio. O percurso seguiu parte do novo Circuito de Blocos de Carnaval de Rua “Preta Gil”, criado recentemente pela Prefeitura como tributo à artista que, por anos, comandou o Bloco da Preta, um dos mais tradicionais e democráticos do Carnaval carioca.
O trajeto do cortejo, acompanhado por fãs e foliões emocionados, reafirmou o caráter popular e afetivo da relação de Preta com o Rio, cidade onde consolidou sua carreira e construiu pontes entre arte, diversidade e militância. Em meio à multidão, cartazes, fantasias, cores e canções marcavam a despedida de uma mulher que usou o palco como trincheira e a música como ferramenta de transformação.
“Agora tudo é saudade”, escreveu sua irmã, Bela Gil, nas redes sociais, em uma das centenas de mensagens que circularam desde a confirmação do falecimento. Artistas de todas as gerações, jornalistas, ativistas e políticos prestaram tributos à cantora, lembrando de sua luta pela equidade racial, pelos direitos das mulheres e pela valorização do corpo e da autoestima em um país ainda marcado por preconceitos estruturais.
Preta Gil nasceu em Salvador, em 1974, filha do cantor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e de Sandra Gadelha. Ainda criança, migrou para o Rio, onde cresceu imersa em um ambiente artístico e politizado. Lançou seu primeiro álbum solo em 2003 e, desde então, construiu uma carreira multifacetada, passando pela TV, pelo cinema e pela gestão cultural. Em 2024, lançou sua autobiografia “Preta Gil: os primeiros 50”, em que narra sua trajetória e relata com franqueza sua luta contra o câncer, seus desafios pessoais e os bastidores de uma vida sob os holofotes.
Diagnosticada com adenocarcinoma no intestino em janeiro de 2023, Preta enfrentou a doença com coragem e abertura. Compartilhou com o público todas as etapas do tratamento, as vitórias, as recaídas e o impacto emocional do processo. A forma como lidou com a enfermidade, transformando a dor em conexão, foi considerada por muitos como um exemplo de dignidade e força.
Em 2025, já enfrentando metástases em múltiplos órgãos, Preta viajou aos Estados Unidos para um tratamento experimental no renomado Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York. Mesmo em meio a sessões exaustivas, manteve-se ativa nas redes sociais, dividindo reflexões e mensagens de amor. Faleceu nos Estados Unidos e teve o corpo repatriado nos dias seguintes.
Além da cerimônia e do cortejo, a Prefeitura do Rio anunciou que o nome de Preta será incorporado permanentemente ao calendário oficial da cidade, com o Circuito de Blocos “Preta Gil” previsto para estrear no Carnaval de 2026. A ideia é eternizar sua contribuição não apenas como artista, mas como ícone da liberdade, da diversidade e do direito de ser quem se é.
Preta Gil deixa um filho, Francisco, familiares, uma legião de fãs e um legado artístico, cultural e político que ultrapassa fronteiras. A despedida no Theatro Municipal selou com grandeza a importância que ela teve na cena nacional. Como cantora, empresária, apresentadora e ativista, Preta abriu caminhos para outras vozes e corpos sempre com brilho, irreverência e coragem.
