UE e Brasil descartam reabrir negociação comercial apesar da França

DA REDAÇÃO

A União Europeia e o governo brasileiro reforçaram nesta semana que não pretendem reabrir as negociações do acordo comercial entre o bloco europeu e o Mercosul, mesmo diante das crescentes pressões da França. A declaração veio de autoridades de ambos os lados durante um encontro diplomático em Brasília, em meio à reta final de ajustes técnicos que antecedem a esperada assinatura do tratado.

Segundo o chefe adjunto da Delegação da União Europeia no Brasil, o entendimento é de que as negociações já foram suficientemente debatidas ao longo de mais de duas décadas. “Não se trata mais de reabrir textos. A expectativa agora é concluir o que já está pronto e avançar para a assinatura ainda neste ano”, afirmou o diplomata.

Do lado brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores reiterou o mesmo posicionamento, ressaltando que o país está comprometido com os termos estabelecidos e que a reabertura do acordo poderia comprometer a credibilidade do processo. Para o Itamaraty, as reivindicações da França são legítimas no campo político, mas não representam um consenso dentro da União Europeia.

O impasse envolve, sobretudo, preocupações francesas com temas ambientais e agrícolas. O governo francês, liderado por Gabriel Attal, tem pressionado por cláusulas mais rígidas de rastreabilidade ambiental e proteção da agricultura local. Entretanto, outros países do bloco, como Alemanha, Espanha, Holanda e Portugal, defendem a rápida conclusão do acordo para impulsionar o comércio e a cooperação internacional com a América Latina.

O tratado entre Mercosul e União Europeia é considerado o maior acordo comercial já firmado pelo Brasil e um dos mais ambiciosos da história da UE. Ele prevê a eliminação de tarifas sobre 90% das exportações de ambas as partes, além de estabelecer marcos regulatórios para temas como propriedade intelectual, sustentabilidade, compras governamentais e regras sanitárias.

Especialistas avaliam que o tratado poderá agregar até R$ 500 bilhões à economia brasileira nos próximos 15 anos, com ganhos expressivos nas exportações do agronegócio e da indústria de base. Já para a União Europeia, o acordo é estratégico para ampliar a influência econômica do bloco em uma região rica em recursos naturais e oportunidades de investimento, especialmente em energia limpa, minerais críticos e infraestrutura.

Apesar das críticas francesas, fontes internas da Comissão Europeia informaram que não há apoio majoritário para reabrir o texto. A própria presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, teria reafirmado internamente que os termos do acordo “são robustos e equilibrados”, e que o momento atual exige pragmatismo e cooperação internacional, sobretudo em meio às disputas comerciais com China e Estados Unidos.

Para o Brasil, a finalização do tratado com a União Europeia também é vista como uma resposta geopolítica relevante. Com os Estados Unidos adotando uma postura protecionista e a Ásia ganhando espaço nas exportações brasileiras, o acesso preferencial ao mercado europeu é tratado como prioridade estratégica pelo governo Lula.

Durante o encontro em Brasília, os representantes do bloco europeu e do Mercosul estabeleceram um cronograma técnico para revisar pendências operacionais e concluir a tradução final do texto jurídico do acordo até setembro. A expectativa compartilhada é que a assinatura ocorra durante uma cúpula bilateral prevista para o último trimestre de 2025.

Ainda assim, fontes diplomáticas alertam que a pressão francesa pode gerar instabilidade política no Parlamento Europeu, onde o texto precisará ser ratificado. O partido do presidente Emmanuel Macron, embora minoritário no legislativo europeu, poderá articular com outros grupos mais conservadores e ambientalistas para adiar ou condicionar a ratificação à introdução de salvaguardas adicionais.

Por outro lado, líderes do Mercosul já adiantaram que não aceitarão retrocessos em cláusulas que comprometam os interesses regionais ou que reabram discussões encerradas. A diplomacia brasileira, por sua vez, acredita que o equilíbrio será mantido com base na força do consenso político já construído ao longo dos anos.

No cenário global de fragmentação econômica, o tratado UE-Mercosul representa não apenas um acordo comercial, mas também um movimento geoestratégico com implicações profundas para o equilíbrio entre potências. Por ora, Brasil e União Europeia permanecem alinhados na decisão de não ceder às pressões da França, priorizando a assinatura e implementação rápida do pacto histórico.Perguntar ao ChatGPT