
O presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (14) a suspensão parcial das tarifas globais de 10% aplicadas em abril sobre diversos produtos agrícolas, incluindo café, carne, açaí, castanha-do-pará e frutas tropicais. No entanto, as taxas adicionais de 40% impostas especificamente aos produtos brasileiros continuam válidas, mantendo o Brasil fora da lista de países beneficiados.
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A medida, oficializada por meio de uma ordem executiva assinada por Trump, altera o escopo das tarifas em função de “recomendações técnicas e negociações internacionais em andamento”. O novo decreto entra em vigor a partir das 00h01 do dia 13 de novembro de 2025.
Suspensão seletiva e pressão interna
Segundo o texto publicado pela Casa Branca, o objetivo é aliviar a pressão inflacionária sobre produtos de consumo básico nos Estados Unidos. O governo americano enfrenta crescentes críticas pelo aumento dos preços dos alimentos, especialmente do café e da carne bovina.
Em entrevista à Fox News no início da semana, Trump havia adiantado que estudava reduzir tarifas sobre o café, sem detalhar quais países seriam contemplados.
Apesar do alívio global, os produtos brasileiros continuam sujeitos à tarifa adicional de 40%, imposta em julho após tensões diplomáticas.
“As novas isenções não alteram a sobretaxa específica sobre o Brasil. Seguimos negociando um acordo bilateral para rever o tarifaço”, declarou Luís Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura.
Impacto para o Brasil
A exclusão brasileira é significativa: o país é o maior fornecedor de café aos Estados Unidos e responde por cerca de um terço das importações americanas. Em setembro, as exportações brasileiras do grão para os EUA caíram 47% em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
Antes das tarifas, o Brasil exportava US$ 7,4 bilhões em produtos agrícolas para os EUA — o quarto maior volume entre todos os parceiros americanos, atrás da União Europeia, México e Canadá.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) comemorou parcialmente o anúncio, destacando que a decisão “reabre o diálogo técnico entre os países”.
“A medida reconhece a importância da carne brasileira e pode ser o primeiro passo para normalizar o comércio bilateral”, afirmou a entidade.
Contexto político e econômico
A decisão de Trump ocorre em meio ao aumento do custo de vida nos Estados Unidos. O relatório de inflação do Departamento do Trabalho mostrou que os alimentos subiram 2,7% em um ano, pressionando o governo a reduzir barreiras comerciais.
Na quinta-feira (13), Washington também reduziu tarifas sobre café e bananas importados da Argentina, Guatemala, Equador e El Salvador, em busca de novas rotas de abastecimento.
Para o Brasil, o impasse tarifário permanece ligado à crise diplomática desencadeada pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado ideológico de Trump. As medidas punitivas elevaram em até 50% o custo total de alguns produtos brasileiros exportados aos EUA, combinando a tarifa-base de 10% e a sobretaxa de 40%.
Negociações em andamento
Após meses de atrito, os governos de Lula e Trump reabriram as conversas em outubro. Os presidentes se reuniram pessoalmente na Malásia, onde discutiram a redução gradual das barreiras comerciais.
Nesta semana, o chanceler Mauro Vieira encontrou-se com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no Canadá e em Washington, buscando um acordo preliminar ainda em novembro.
“Temos confiança em um entendimento que estabeleça um mapa de negociação para os próximos meses”, afirmou Vieira.
Assessores próximos ao presidente Lula veem a suspensão parcial como um sinal positivo, ainda que insuficiente. Já Celso Amorim, assessor especial da Presidência, disse à BBC News Brasil que “é uma boa notícia para os produtores e consumidores americanos, mas o Brasil ainda aguarda medidas concretas que incluam nossos manufaturados”.
Beneficiados e riscos geopolíticos
Entre os países favorecidos estão Argentina, México, Canadá e nações da América Central, que exportam café, carne e frutas para os Estados Unidos. O gesto é visto como um movimento estratégico de Trump para fortalecer laços comerciais com governos alinhados politicamente e conter a influência chinesa no agronegócio latino-americano.
Entretanto, economistas alertam que a manutenção da tarifa de 40% ao Brasil poderá redirecionar o comércio agrícola americano, favorecendo concorrentes regionais.
“Trump tenta equilibrar política interna e diplomacia comercial, mas excluir o Brasil cria distorções num mercado em que o país é fornecedor essencial”, analisa Carla Bentes, economista da Genial Investimentos.
Enquanto a Argentina celebra o aumento potencial de exportações, o Brasil aguarda novos desdobramentos para saber se a política tarifária será revisada antes do fim do ano.
