
O ex-presidente dos Estados Unidos e atual candidato à reeleição, Donald Trump, voltou a se envolver diretamente nos assuntos políticos do Brasil ao publicar uma carta aberta endereçada a Jair Bolsonaro, ex-presidente brasileiro, nesta quarta-feira. No texto, Trump reitera apoio ao aliado conservador e faz duras críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), classificando os processos contra Bolsonaro como “uma farsa orquestrada para calar a oposição”. A carta veio à tona poucos dias após o anúncio de uma nova rodada de tarifas americanas sobre produtos brasileiros, com alíquotas de até 50% em setores estratégicos como o aço e o agronegócio.
Na carta, Trump afirma: “Estarei acompanhando de perto o que está acontecendo no Brasil. O mundo inteiro está vendo o que estão fazendo com você. Força, Jair!”. O tom pessoal do comunicado reflete a relação de proximidade construída entre os dois líderes durante os respectivos mandatos, marcada por afinidades ideológicas, alinhamento diplomático e elogios mútuos. A publicação gerou reações imediatas no cenário político nacional e internacional, acirrando ainda mais o clima de tensão entre os Poderes no Brasil.
A manifestação de Trump acontece no momento em que Bolsonaro enfrenta um processo no STF relacionado à tentativa de deslegitimar o processo eleitoral de 2022 e incentivar atos antidemocráticos. O inquérito, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, inclui acusações de incitação, abuso de poder político e ataque às instituições democráticas. A defesa de Bolsonaro alega perseguição política, tese que Trump endossa publicamente ao comparar o caso ao que, segundo ele, ocorre nos Estados Unidos: “Estamos passando por algo semelhante aqui. Querem nos tirar da corrida porque não podem nos vencer nas urnas”, escreveu.
O gesto de Trump reforça sua estratégia de campanha eleitoral nos EUA, baseada na ideia de que líderes conservadores estão sendo perseguidos por sistemas judiciais supostamente aparelhados. Ele tem repetido esse discurso em seus comícios, ampliando o alcance de sua retórica para além das fronteiras americanas. Ao citar Bolsonaro como exemplo de vítima de “lawfare” (uso da justiça como arma política), Trump busca solidariedade internacional e tenta consolidar uma frente simbólica contra o establishment político e judicial, tanto dentro quanto fora dos EUA.
Além do conteúdo político, a carta foi publicada no mesmo período em que Trump anunciou novas tarifas comerciais contra o Brasil. A medida impacta diretamente setores como aço, carne, alumínio, etanol e papel celulose, e foi justificada por supostas práticas comerciais desleais e manipulação cambial — alegações que o governo brasileiro nega. Especialistas avaliam que o gesto tem duplo efeito: fortalecer a base nacionalista de Trump em ano eleitoral e aumentar a pressão sobre o atual governo brasileiro, com quem Trump mantém relação tensa.
Do lado brasileiro, o Palácio do Planalto preferiu não comentar oficialmente a carta, mas fontes próximas ao governo classificaram a manifestação como “interferência indevida nos assuntos internos do Brasil”. Já aliados de Bolsonaro comemoraram a iniciativa de Trump, destacando o apoio internacional como um sinal de prestígio político. Parlamentares bolsonaristas aproveitaram para reforçar críticas ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes, sugerindo que o processo em curso visa afastar Bolsonaro definitivamente da vida pública.
Juristas e analistas políticos alertam, no entanto, para os riscos diplomáticos da atitude de Trump. A crítica direta ao STF pode ser interpretada como afronta à soberania do Judiciário brasileiro, acirrando ainda mais as tensões institucionais no país. Também levanta questionamentos sobre o uso de lideranças estrangeiras como instrumento de pressão política em processos nacionais.
A carta publicada por Trump, portanto, não é um ato isolado, mas parte de uma estratégia maior de enfrentamento político e de construção de uma narrativa global de vitimização conservadora. Ao lado de líderes como Viktor Orbán, da Hungria, e Javier Milei, da Argentina, Trump tenta criar uma rede simbólica de apoio mútuo que transcende as fronteiras nacionais. Bolsonaro, por sua vez, se beneficia dessa retórica para manter sua base mobilizada, especialmente diante das restrições impostas por decisões judiciais que o afastaram das disputas eleitorais.
O episódio também acende um alerta para o papel das redes sociais na propagação dessas mensagens. A carta foi divulgada primeiramente na conta oficial de Trump na plataforma Truth Social e rapidamente replicada por parlamentares, influenciadores e grupos alinhados ao bolsonarismo no Brasil. Em poucas horas, o conteúdo acumulava milhares de compartilhamentos e curtidas, tornando-se um dos assuntos mais comentados do dia.
Enquanto isso, o processo contra Bolsonaro no STF segue avançando, com previsão de novos depoimentos e análise de provas nas próximas semanas. A Corte reafirmou seu compromisso com o devido processo legal e com a independência entre os Poderes, reiterando que decisões judiciais não podem ser influenciadas por manifestações estrangeiras.
A carta de Trump a Bolsonaro lança luz sobre o crescente entrelaçamento entre política doméstica e internacional no mundo atual. O apoio público entre líderes com agendas semelhantes tem ultrapassado os limites da diplomacia tradicional, criando um cenário onde alianças ideológicas ganham mais relevância do que convenções institucionais. A crítica de Trump ao STF, portanto, não diz respeito apenas ao Brasil, mas compõe um discurso globalizado de desconfiança em relação às instituições, alimentado por líderes populistas que disputam espaço na narrativa pública por meio da polarização e do confronto.
