
Nesta semana, a Terra registrará o segundo dia mais curto da história, completando sua rotação em torno do próprio eixo cerca de 1,34 milissegundo mais rápido do que o habitual. O fenômeno, embora imperceptível no cotidiano, chamou a atenção da comunidade científica internacional, que agora investiga as causas por trás dessa aceleração súbita e anômala na rotação do planeta.
De acordo com o Serviço Internacional de Sistemas de Referência e Rotação da Terra (IERS), o evento está previsto para ocorrer entre os dias 23 e 24 de julho. A previsão foi feita com base em dados de relógios atômicos de altíssima precisão, que monitoram constantemente a variação do tempo de rotação da Terra com margens inferiores a milésimos de segundo.
A duração oficial de um dia 24 horas corresponde ao tempo médio que a Terra leva para completar uma volta em torno de si mesma. No entanto, esse valor é apenas uma média, pois a rotação do planeta pode variar levemente devido a fatores geofísicos, como a movimentação do núcleo, atividade sísmica, redistribuição de massas oceânicas e até mudanças climáticas.
O recorde anterior do dia mais curto da Terra foi registrado em 26 de julho de 2022, quando o planeta girou 1,59 milissegundo mais rápido. Com a nova marca, os cientistas observam uma tendência preocupante: o aumento na frequência desses episódios, que contraria as previsões tradicionais de desaceleração gradual da rotação terrestre ao longo dos milênios.
Historicamente, acreditava-se que a Terra estivesse girando cada vez mais devagar devido à ação das marés, especialmente pela influência gravitacional da Lua. Esse processo de frenagem natural é tão constante que, a cada século, os dias terrestres ficariam, em média, 2,3 milissegundos mais longos. No entanto, os registros recentes mostram variações de sentido oposto, com dias se tornando mais curtos um fenômeno que ainda carece de explicações definitivas.
Pesquisadores do Observatório Real de Greenwich e do Instituto de Geofísica de Paris apontam para possíveis causas relacionadas ao núcleo da Terra. Flutuações na velocidade de rotação do núcleo interno, que gira de forma ligeiramente distinta da superfície, podem impactar diretamente a dinâmica rotacional do planeta como um todo. Além disso, deslocamentos de massa ocasionados por grandes terremotos ou derretimento de geleiras também são monitorados como potenciais influenciadores dessa aceleração.
Outra hipótese levantada considera os efeitos da chamada oscilação de Chandler, um movimento irregular do eixo de rotação da Terra, descoberto em 1891, que pode fazer o planeta “bambolear” ligeiramente como um pião. Quando esse fenômeno coincide com outros fatores naturais, como mudanças de pressão atmosférica ou redistribuição da água dos oceanos, pode haver variações sutis na rotação.
Embora 1,34 milissegundo pareça pouco e de fato é imperceptível no relógio comum, essa diferença tem impacto em sistemas que dependem de extrema precisão temporal, como redes de satélites, telecomunicações e GPS. Em casos extremos, variações acumuladas podem levar à necessidade de ajustes nos relógios atômicos e até mesmo à inclusão ou remoção dos chamados segundos intercalares algo que já ocorreu diversas vezes desde os anos 1970.
No entanto, nos últimos anos, ao invés de adicionar segundos, cientistas passaram a debater a possibilidade de retirar um segundo intercalar, caso o encurtamento dos dias persista. Essa seria uma situação inédita e desafiadora para a infraestrutura global de tempo, pois a maioria dos sistemas computacionais está preparada apenas para adicionar tempo, e não para reduzi-lo.
Segundo o pesquisador Christian Bizouard, do Observatório de Paris, “a Terra é um sistema extremamente sensível, e pequenas variações internas podem ter consequências globais. Estamos apenas começando a entender a complexidade desses fenômenos, e os próximos anos serão fundamentais para estudar como e por que a rotação da Terra está mudando”.
Apesar do impacto técnico limitado no cotidiano da população, o fenômeno chama a atenção por sua raridade e pelos mistérios geofísicos que ainda carrega. Especialistas enfatizam que, embora não haja risco imediato, o comportamento anormal da rotação da Terra pode ser um sinal de transformações estruturais mais profundas e ainda pouco compreendidas.
A divulgação da nova marca também reacendeu discussões entre astrônomos e geofísicos sobre a necessidade de modernizar os modelos de tempo civil, que ainda se baseiam em padrões históricos que não necessariamente acompanham as dinâmicas atuais do planeta. Se a tendência de encurtamento continuar, ajustes sistêmicos poderão ser exigidos em décadas futuras.
Enquanto isso, a população pode continuar a viver normalmente, sem notar que o planeta girou um pouco mais rápido que o habitual. Ainda assim, o segundo dia mais curto da Terra serve como lembrete de que nosso mundo está longe de ser um relógio estático e previsível ele pulsa, gira e muda, muitas vezes em silêncio milimétrico, mas com implicações de longo alcance.
