Tarifaço de Trump: Lula cobra firmeza nas negociações com EUA

DA REDAÇÃO

A tensão entre Brasil e Estados Unidos ganhou novos contornos após o anúncio do chamado “tarifaço de Trump”, que impõe taxas de 50% sobre todas as exportações brasileiras. Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou uma reunião emergencial com seus principais ministros e o presidente do Banco Central na noite de domingo (13), no Palácio da Alvorada, para definir uma estratégia de enfrentamento com base em “firmeza e sobriedade”.

Segundo interlocutores do governo, Lula deixou claro que qualquer tentativa de interferência externa no Judiciário brasileiro será considerada inegociável, especialmente se envolver o Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente reforçou que a pauta será estritamente econômica e que a soberania nacional não será colocada à mesa.

Na avaliação do governo, a elevação unilateral das tarifas por parte dos Estados Unidos representa um ataque direto aos princípios da diplomacia comercial, mas não altera o compromisso brasileiro com a via diplomática. “Não vamos comprar uma guerra comercial. Mas, se ela vier, enfrentaremos com maturidade e alternativas”, relatou um dos ministros presentes à reunião.

Durante o encontro, foram discutidas ações concretas que incluem a criação de um comitê de empresários brasileiros ainda nesta segunda-feira. O objetivo é mobilizar o setor privado em torno de uma resposta técnica e estratégica ao impacto das novas tarifas americanas, além de mapear possíveis pontos de negociação com o governo norte-americano dentro do campo econômico.

A proposta mais contundente debatida é a regulamentação da Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada em abril pelo Congresso Nacional. A medida autoriza o Brasil a retaliar comercialmente países que imponham barreiras injustas às exportações nacionais. Caso as conversas com os EUA não avancem, Lula pretende editar um decreto regulamentando a lei, o que permitiria ao país aplicar taxas semelhantes sobre produtos americanos.

Embora os impactos do tarifaço possam gerar perdas importantes para determinados setores da economia brasileira como o aço, o agronegócio e a indústria de base o governo destaca que o Brasil não é mais tão dependente dos Estados Unidos como foi em décadas anteriores. Hoje, a Ásia responde por uma fatia crescente das exportações brasileiras, com destaque para China, Vietnã e Indonésia.

Esse novo cenário global confere ao Brasil maior margem de manobra. Há duas décadas, os EUA representavam um terço das exportações brasileiras. Atualmente, esse percentual caiu consideravelmente, o que torna o país menos vulnerável a pressões unilaterais da maior potência econômica do mundo.

Além da reunião ministerial, o Planalto também considera envolver o Itamaraty em um novo esforço diplomático multilateral, com articulações em organizações como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o BRICS. O objetivo é denunciar a medida como contrária aos tratados internacionais de comércio e buscar apoio de parceiros estratégicos, como China, Índia e Rússia, para isolar politicamente os EUA nesse tipo de prática protecionista.

Lula também criticou duramente os argumentos de Donald Trump, que justificou o tarifaço com base no julgamento de Jair Bolsonaro no STF e supostas ordens judiciais contra redes sociais americanas no Brasil. O presidente brasileiro reforçou que a Justiça é independente e que nenhum país tem autoridade para interferir nos processos jurídicos internos de outra nação soberana.

No Congresso Nacional, a medida americana foi recebida com preocupação por parlamentares da base e da oposição. Enquanto aliados de Lula cobram retaliação imediata, setores do agronegócio fortemente impactado exigem apoio institucional e abertura de novos mercados para escoamento da produção que poderá ser barrada nos portos americanos.

Mesmo diante das tensões, a orientação do governo permanece focada em preservar a diplomacia como ferramenta principal. “O Brasil quer negociar, não recuar”, afirmou um auxiliar direto de Lula. “Mas também não aceitará imposições ou ameaças disfarçadas de medidas comerciais.”

O desfecho desse impasse pode marcar um novo capítulo na política externa brasileira, especialmente no que se refere à relação com os Estados Unidos sob a nova gestão Trump. A criação do America Party por Elon Musk, antigo aliado do republicano, e o crescente apoio ao bitcoin como reserva de valor também refletem um cenário de incertezas econômicas e políticas no país norte-americano o que pode influenciar diretamente nos rumos dessa disputa.

Enquanto isso, empresários, analistas e diplomatas aguardam os próximos passos com cautela, cientes de que o desfecho das negociações terá impacto direto nas exportações brasileiras, no dólar, na inflação e, principalmente, na credibilidade internacional do Brasil como parceiro comercial confiável e soberano.