Poeira do Saara chega ao Brasil e pode piorar a qualidade do ar no Norte e Nordeste

Nuvem de poeira vinda do Saara se aproxima do Norte e Nordeste do Brasil
DA REDAÇÃO

A poeira do Saara está a caminho do Brasil e deve atingir principalmente as regiões Norte e Nordeste nos próximos dias, trazendo um céu mais turvo, queda de visibilidade e possível piora temporária da qualidade do ar. O fenômeno, monitorado por satélites e estações atmosféricas, ocorre quando ventos alísios empurram grandes massas de ar seco e carregadas de partículas minerais do norte da África para o Atlântico tropical. Por isso, o que começa como uma tempestade de poeira a milhares de quilômetros pode terminar como um “véu” amarelado no horizonte brasileiro.

Esse tipo de transporte não é raro. No entanto, quando a pluma chega com maior densidade, os efeitos ficam mais perceptíveis no cotidiano: o pôr do sol ganha tons mais alaranjados, o horizonte parece “lavado” e a sensação de ar pesado aumenta. Além disso, pessoas com asma, rinite, bronquite, DPOC e outras condições respiratórias tendem a sentir primeiro, sobretudo em dias de calor, baixa umidade e pouca ventilação local. Ou seja, não é “só poeira no ar”: é um episódio de aerossóis que pode pressionar pronto-atendimentos e aumentar o desconforto em grupos vulneráveis.

O caminho dessa poeira é longo, mas relativamente “organizado” pela circulação atmosférica. Em geral, a pluma sai da África, cruza o Atlântico em níveis médios da atmosfera e alcança o Caribe e o norte da América do Sul antes de avançar sobre áreas brasileiras. Países como Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Venezuela e Colômbia costumam perceber a chegada primeiro. Portanto, quando os registros de céu turvo e aumento de partículas aparecem nesses pontos, o Norte e o Nordeste entram no radar de curto prazo.

Apesar do alerta de saúde, há um lado ambiental relevante. A poeira não é composta apenas de “areia”: ela carrega minerais como ferro e fósforo, que funcionam como uma espécie de adubo natural ao longo do percurso. Por isso, pesquisadores há anos estudam como esse fluxo contribui para repor nutrientes em ecossistemas tropicais, inclusive na Amazônia. Um estudo amplamente citado mostrou que grandes volumes de poeira do Saara chegam anualmente à bacia amazônica e ajudam a compensar perdas naturais de nutrientes do solo.  Ou seja, a mesma pluma que irrita vias aéreas também participa, em escala continental, de um ciclo biogeoquímico importante.

O problema é que benefício ecológico não elimina risco individual. Muitas das partículas transportadas são muito pequenas, e é justamente o tamanho que determina o impacto no corpo. Partículas finas (como as do grupo PM2,5) conseguem penetrar profundamente nos pulmões e, em alguns casos, estão associadas a efeitos sistêmicos. Por isso, organizações de saúde tratam episódios de aumento de material particulado como um fator que merece cautela, principalmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas. 

Na prática, o que muda no dia a dia quando a pluma chega? Primeiro, a atmosfera pode ficar mais opaca, com uma “névoa seca” que não tem relação direta com chuva. Além disso, a poeira pode alterar a forma como a luz se espalha, então fotos e imagens parecem menos nítidas. Em alguns casos, também ocorre a chamada “chuva suja”, quando a umidade e a precipitação arrastam partículas e deixam marcas em carros, janelas e superfícies. No entanto, isso depende do encontro entre a pluma e sistemas locais de chuva, e nem sempre acontece.

No aspecto meteorológico, a poeira pode interferir na formação de nuvens e na radiação solar que chega ao solo, ainda que de modo temporário. Portanto, a sensação térmica e a dinâmica de nuvens podem oscilar, especialmente em áreas costeiras e em grandes centros urbanos do Nordeste, onde a circulação local já é sensível a variações de umidade e vento. Mesmo assim, não é um “evento de mudança climática” em si, e sim um episódio atmosférico de transporte de aerossóis que ocorre há décadas, com intensidade variável.

Para a saúde, o recado é simples e preventivo. Se você faz parte de grupo sensível, a recomendação é reduzir atividades físicas intensas ao ar livre nos períodos de maior concentração e priorizar ambientes ventilados, porém sem levantar poeira doméstica. Além disso, hidratação ajuda a minimizar irritação de garganta e olhos. Quem usa medicação controlada (como bombinhas para asma) deve mantê-la por perto, e, se houver piora persistente de sintomas, o caminho é atendimento médico, não “aguentar até passar”. Máscaras bem ajustadas podem reduzir a inalação de partículas em deslocamentos, especialmente em locais com muita poeira suspensa por vento e tráfego.

As autoridades e serviços meteorológicos normalmente acompanham esse tipo de evento por imagens de satélite, modelos de aerossóis e medições de qualidade do ar. Por isso, vale acompanhar boletins locais e alertas das secretarias de saúde quando houver indicação de aumento relevante de partículas. Em termos de política pública, esse tipo de episódio também reforça um ponto: quando a qualidade do ar já é pressionada por queimadas, poeira urbana e emissões, uma pluma externa pode somar “mais um degrau” em um cenário que já estava sensível.

No fim, a poeira do Saara que chega ao Norte e ao Nordeste é um lembrete de como o planeta funciona conectado: um vento no deserto pode influenciar a visibilidade em Belém, a respiração em cidades do litoral nordestino e até a fertilidade de florestas do outro lado do oceano. Portanto, a melhor resposta é equilibrada: sem pânico, mas com atenção a sintomas, acompanhamento de alertas e atitudes simples para atravessar o período com segurança.