Pandemia muda reciclagem e destaca catadores no Brasil

DA REDAÇÃO

A pandemia da Covid-19 alterou profundamente a cadeia de reciclagem no Brasil, promovendo transformações nos padrões de consumo e evidenciando o papel central dos catadores de materiais recicláveis na engrenagem da sustentabilidade urbana. Segundo estudo da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), o período pandêmico provocou uma reorganização do setor, ao mesmo tempo em que expôs vulnerabilidades estruturais e aumentou a visibilidade de trabalhadores historicamente marginalizados.

Com o avanço da pandemia, mudanças nos hábitos da população impactaram diretamente o volume e o tipo de resíduos gerados. O crescimento do consumo doméstico, impulsionado pelo isolamento social e pelo fechamento de estabelecimentos comerciais, levou a um aumento significativo na geração de embalagens plásticas, papelão e papel, especialmente por conta do e-commerce e do delivery de alimentos. Ao mesmo tempo, o fechamento temporário de cooperativas e centros de triagem afetou a capacidade de processamento desses resíduos em várias regiões do país.

Nesse cenário, os catadores de materiais recicláveis passaram a desempenhar um papel ainda mais estratégico. Muitas vezes atuando de forma autônoma ou organizados em cooperativas, esses profissionais continuaram a realizar a coleta seletiva mesmo quando os serviços públicos estavam paralisados. De acordo com a Anap, cerca de 90% do material reciclado no Brasil tem como origem a coleta realizada por catadores — um dado que se manteve estável, mas cuja percepção social e institucional ganhou nova dimensão durante a crise sanitária.

O estudo revela ainda que, entre 2020 e 2022, houve um crescimento de 28% no número de catadores formalmente vinculados a cooperativas ou associações. Esse avanço é resultado não apenas da necessidade econômica imposta pela pandemia, mas também de políticas públicas locais que buscaram apoiar o setor informal. Cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre ampliaram os contratos com cooperativas, ofereceram linhas emergenciais de financiamento e criaram programas de capacitação e fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Apesar dos avanços, o cenário ainda é desafiador. A informalidade segue sendo predominante no setor, e muitos catadores atuam em condições precárias, sem acesso a direitos trabalhistas ou estrutura básica para exercer sua atividade com segurança e dignidade. O reconhecimento do protagonismo dos catadores durante a pandemia reacendeu o debate sobre a necessidade de uma política nacional robusta de inclusão socioeconômica e valorização desse segmento.

A reciclagem no Brasil após a pandemia passou a ser vista sob um novo prisma. O conceito de economia circular ganhou força no discurso público e corporativo, com empresas buscando alinhar-se às metas ESG (ambientais, sociais e de governança). No entanto, conforme aponta o estudo da Anap, esse movimento precisa incluir os catadores como agentes centrais da transformação. Sem esse reconhecimento e a devida remuneração, a cadeia de reciclagem se mantém insustentável e socialmente desigual.

A pesquisa também observou que, com a crise sanitária, houve uma queda abrupta no valor de venda dos materiais recicláveis, especialmente no início da pandemia, o que impactou diretamente a renda dos catadores. O preço do papelão, por exemplo, chegou a cair mais de 40% em algumas regiões. Ao mesmo tempo, a demanda por materiais recicláveis subiu com o aumento da produção de embalagens, criando um descompasso entre oferta e remuneração justa. Esse cenário forçou cooperativas a buscarem alternativas como a venda direta para indústrias e o fortalecimento de redes regionais.

Outro ponto abordado pelo estudo foi a inovação tecnológica dentro das cooperativas. Com apoio de universidades, ONGs e startups, muitas associações passaram a implementar ferramentas de gestão, aplicativos de coleta e sistemas de pesagem digital. Isso não apenas aumentou a produtividade, como também possibilitou maior rastreabilidade dos resíduos e a prestação de contas mais eficiente às prefeituras e empresas parceiras.

A pandemia e os catadores se tornaram, assim, protagonistas de uma transformação mais ampla: a redescoberta do valor do trabalho de base e da importância de sistemas descentralizados de gestão de resíduos. O momento também impulsionou discussões sobre justiça ambiental, especialmente nas periferias urbanas, onde a coleta oficial é insuficiente e os catadores preenchem essa lacuna.

Para os próximos anos, especialistas apontam que o fortalecimento da reciclagem no Brasil dependerá de três pilares: investimento em infraestrutura pública e comunitária de coleta seletiva, inclusão formal e valorização dos catadores, e incentivos à indústria para utilização crescente de matéria-prima reciclada. Há também um apelo para maior participação da sociedade, com campanhas educativas sobre separação correta dos resíduos e combate ao descarte irregular.

O estudo da Anap conclui que o período da pandemia, apesar de trágico, serviu como catalisador para uma reavaliação urgente das políticas de resíduos sólidos no Brasil. O protagonismo dos catadores não pode mais ser invisibilizado, e sua presença no centro da estratégia de sustentabilidade deve ser institucionalizada e protegida. A transição para uma economia verdadeiramente circular no país não se dará por meio de grandes soluções tecnológicas isoladas, mas com a valorização real de quem está há décadas promovendo reciclagem com as próprias mãos.