Após escândalo no INSS, Lupi deixa Previdência e Lula nomeia Wolney Queiroz para conduzir pasta em crise

DA REDAÇÃO

A saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência Social nesta sexta-feira (2) marca um dos episódios mais turbulentos enfrentados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato. A decisão ocorre em meio a um escândalo de grande repercussão envolvendo descontos indevidos de mensalidades de aposentados e pensionistas do INSS para entidades que não possuíam autorização formal. A operação da Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União expôs fragilidades estruturais na administração da Previdência, intensificou as críticas da oposição e forçou uma resposta política imediata do Palácio do Planalto.

Mesmo sem ser citado diretamente nas investigações, Lupi comunicou a sua saída por meio de uma publicação na rede social X (antigo Twitter), onde declarou que entregava o cargo ao presidente Lula com a consciência tranquila e sem qualquer envolvimento pessoal no caso. No entanto, nos bastidores do governo, crescia a avaliação de que o ex-ministro não demonstrou a agilidade necessária para lidar com a crise. A permanência de dirigentes do INSS, mesmo diante de fortes indícios de irregularidades, foi vista como um erro estratégico e um fator agravante para a continuidade do desgaste.

A substituição imediata pelo então secretário-executivo da pasta, Wolney Queiroz, foi anunciada em nota oficial pelo Palácio do Planalto. A nomeação será publicada ainda nesta sexta-feira em edição extraordinária do Diário Oficial da União. Com isso, Lula busca não apenas reorganizar os quadros técnicos da Previdência, mas também conter a pressão política que se intensifica dentro e fora do Congresso Nacional. A oposição já articula a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar responsabilidades, o que pode ampliar o impacto político do episódio.

A operação que levou ao afastamento do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, revelou que milhares de aposentados tiveram valores descontados indevidamente em seus benefícios, sem qualquer autorização formal. As entidades envolvidas, supostamente associativas ou sindicais, teriam se aproveitado de brechas nos sistemas de controle para cobrar mensalidades diretamente na folha de pagamento do INSS, afetando milhares de beneficiários em todo o país.

Lupi reconheceu que houve demora na resposta da pasta diante das denúncias, mas destacou que a origem da investigação veio de dentro da própria Previdência. Segundo o ex-ministro, foi a auditoria interna realizada sob sua gestão que deu base para a atuação da PF e da CGU. Em audiência na Câmara dos Deputados realizada nesta semana, ele defendeu a atuação da pasta e mencionou que o governo Lula estruturou uma força-tarefa para combater fraudes na Previdência logo nos primeiros meses do novo mandato.

Essa força-tarefa, segundo Lupi, resultou na apuração de 268 casos suspeitos, com a execução de 192 mandados de prisão e 701 mandados de busca e apreensão. Além disso, o governo projeta que as ações de controle interno tenham evitado um prejuízo estimado em R$ 1,1 bilhão aos cofres públicos do INSS. Ainda assim, a percepção predominante no Planalto era de que o desgaste político era irreversível, tornando sua permanência insustentável.

A escolha de Wolney Queiroz para comandar o Ministério da Previdência indica a intenção de Lula de manter a continuidade administrativa, mas com um novo rosto capaz de reestabelecer a credibilidade da pasta. Queiroz, que atuava como número dois do ministério, conhece os detalhes da operação e deve adotar uma postura mais incisiva frente às próximas etapas da apuração. Internamente, sua nomeação foi bem recebida por aliados, que enxergam nele um quadro técnico com perfil conciliador e experiência política suficiente para lidar com os desafios que se apresentam.

Nos meios políticos, a mudança é vista como um movimento estratégico de Lula para proteger o núcleo do governo e evitar que o escândalo se estenda para outras áreas. No entanto, o caso traz à tona questões estruturais profundas sobre o funcionamento do INSS, a segurança dos dados dos beneficiários e a relação com entidades externas que utilizam os canais da Previdência para cobranças.

A discussão sobre a criação da CPI continua ganhando força, especialmente com o apoio de parlamentares da oposição que veem no episódio uma oportunidade de fragilizar a base do governo. Caso a comissão seja instaurada, o novo ministro da Previdência deverá ser um dos primeiros convocados a prestar esclarecimentos, assim como os responsáveis pela auditoria interna e pelo sistema de folha de pagamento do INSS.

A crise também coloca em pauta o debate sobre a governança das autarquias federais e a eficácia dos mecanismos de controle digital. Em um cenário de alta digitalização dos serviços públicos, o escândalo evidencia que ainda há falhas graves na supervisão de processos sensíveis, o que demanda uma resposta estrutural e não apenas substituições de cargos.

A nomeação de Wolney Queiroz representa uma tentativa de reconstrução institucional da Previdência Social em meio a uma tempestade política e administrativa. Ele terá como missão imediata reavaliar os contratos e os vínculos com entidades externas, revisar protocolos de autorização de descontos e fortalecer as ações de transparência junto à sociedade. Mais do que isso, deverá assumir protagonismo em uma pauta sensível à maioria da população brasileira: a confiança no sistema previdenciário público.