
Durante visita oficial ao Chile, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que “cumprir o ritual eleitoral a cada 4 ou 5 anos não é mais suficiente” para garantir a democracia. A fala foi proferida em um discurso durante uma cúpula internacional sobre o fortalecimento das instituições democráticas, realizada na segunda-feira, 21 de julho de 2025, em Santiago. A afirmação rapidamente reverberou nas redes sociais, sendo alvo de críticas de opositores e gerando interpretações controversas sobre o real significado do que o presidente quis dizer.
A frase, que inicialmente pode parecer um questionamento à própria estrutura eleitoral representativa, foi, segundo assessores próximos ao Planalto, uma defesa do aprofundamento democrático por meio da participação social contínua, da escuta ativa da população e do fortalecimento das instituições. Para Lula, o voto é essencial, mas não suficiente a democracia, segundo ele, exige mecanismos que assegurem a efetiva representação, transparência e envolvimento popular no intervalo entre os pleitos.
A oposição, contudo, reagiu rapidamente. Parlamentares como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Kim Kataguiri (União-SP) criticaram a declaração, sugerindo que o presidente estaria relativizando a importância do voto. Nas redes sociais, perfis ligados a movimentos conservadores viralizaram trechos do discurso com legendas alarmistas, acusando Lula de flertar com autoritarismo. “Quando o governante diz que eleição não basta, é sinal de alerta vermelho. Democracia se faz com voto, alternância de poder e instituições fortes não com vontade pessoal de permanência”, escreveu Kataguiri em uma publicação.
A fala também repercutiu internacionalmente. Analistas políticos chilenos e argentinos interpretaram a declaração como um reflexo de uma corrente progressista latino-americana que vê a democracia para além das urnas, buscando novas formas de governança participativa. Em resposta às críticas, o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Paulo Pimenta, afirmou que “a fala do presidente foi descontextualizada e visa justamente proteger e aprofundar a democracia, nunca reduzi-la”.
De acordo com o trecho completo do discurso divulgado pelo Planalto, Lula destacou que “a democracia precisa ser vivida todos os dias e sustentada com educação política, liberdade de imprensa, combate à desinformação e inclusão social”. Ele também mencionou que países que apenas realizam eleições formais, mas reprimem movimentos sociais ou concentram poder nas mãos de elites econômicas, estão em risco de erosão democrática.
O presidente reforçou ainda que sua crítica não se direcionava ao processo eleitoral brasileiro, mas sim a uma tendência global de esvaziamento da participação política entre os pleitos. “A cada quatro anos, o povo é chamado às urnas, mas no dia seguinte é deixado de lado”, afirmou. Segundo ele, é necessário garantir fóruns de escuta, orçamento participativo, conselhos populares e canais de interlocução com os diversos setores da sociedade civil.
A declaração também encontra respaldo em estudos recentes sobre o desgaste da democracia representativa em diversas partes do mundo, inclusive em países ocidentais. O relatório “Democracy Index 2024”, publicado pela The Economist Intelligence Unit, alertou que a simples realização de eleições não tem impedido retrocessos democráticos em nações que mantêm estruturas de votação periódica, mas restringem liberdades civis, enfraquecem os parlamentos ou atacam o Judiciário.
Apesar da tentativa do governo de contextualizar a fala, o episódio reacendeu tensões políticas internas em um momento delicado. O presidente ainda lida com pressões econômicas, investigações sobre membros do governo anterior e tensões institucionais com parte do Congresso. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, usou a declaração para atacar o Executivo e reafirmar o pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, sugerindo que o governo atual compactua com abusos de poder.
Lula encerrou sua participação no evento no Chile afirmando que continuará defendendo uma democracia “plural, ativa e inclusiva”, e retornou ao Brasil na manhã de terça-feira (22) para acompanhar de perto as negociações orçamentárias e as articulações sobre a reforma tributária em curso no Congresso Nacional.
