
Nove dias após o início do acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado pelos Estados Unidos, a paz voltou a se desfazer na Faixa de Gaza. No domingo (19), o exército israelense realizou novos bombardeios contra o território palestino, alegando violações da trégua por parte do grupo Hamas. O movimento palestino, por sua vez, nega qualquer agressão e acusa Israel de fabricar “pretextos fracos” para justificar a ofensiva. A frase-chave “Israel ataca Gaza” traduz a escalada de um conflito que parece longe de um desfecho.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, os ataques recentes já deixaram mais de 90 palestinos mortos desde a retomada das ações, incluindo 11 membros de uma mesma família, entre eles sete crianças. As novas ofensivas elevaram o número total de mortos no conflito iniciado em outubro de 2023 para 68.216, além de 170.361 feridos. O Gabinete de Mídia do Governo de Gaza afirmou que Israel violou o cessar-fogo 80 vezes, sendo 21 apenas no último domingo.
Os ataques se concentraram ao longo da chamada Linha Amarela, fronteira que deveria representar uma zona de segurança entre as forças israelenses e as áreas palestinas. No entanto, o local virou palco de tiroteios e confusão. Moradores relatam que a linha é praticamente invisível e mal demarcada. “Quando eu ou as crianças saímos, as balas vêm na nossa direção”, relatou Hala Obaid, deslocada que vive em uma tenda em Shujaiya, à BBC News.
O exército israelense afirmou que disparou contra “indivíduos armados” que cruzaram a fronteira, alegando ameaça imediata. Já o Hamas insistiu que mantém o compromisso com o acordo, e que Israel tenta enfraquecer a trégua para justificar o prosseguimento de sua ocupação militar.
A nova ofensiva também agravou a crise humanitária. Após suspender o envio de ajuda no domingo, Israel reabriu parcialmente os pontos de passagem de Kerem Shalom e Kissufim para caminhões com suprimentos. A travessia de Rafah, na fronteira com o Egito, permanece fechada “até novo aviso”. A Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA) alertou que o volume de ajuda humanitária que entra no território “está muito abaixo do necessário”.
“Os estoques de alimentos e medicamentos estão no limite. Muitas famílias passam dias sem acesso à água potável”, afirmou Sam Rose, diretor interino da UNRWA. Segundo ele, os bloqueios impostos por Israel dificultam a distribuição de suprimentos, agravando a situação de fome e doenças nos campos de refugiados.
Em Washington, o presidente Donald Trump declarou que a trégua “permanece em vigor” e prometeu lidar com as violações “de forma rigorosa, mas adequada”. Enviados especiais da Casa Branca, Jared Kushner e Steve Witkoff, chegaram a Israel para tentar salvar o acordo e avançar para a “fase dois” do plano norte-americano de paz, que prevê a retirada gradual das tropas israelenses, o desarmamento do Hamas e a formação de um governo palestino transitório apoiado pela comunidade internacional.
O vice-presidente JD Vance deve chegar a Israel nos próximos dias para se reunir com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em uma tentativa de conter a escalada e preservar o acordo diplomático. No entanto, fontes ligadas ao governo israelense indicam que há forte resistência interna à retirada total das forças de Gaza, o que pode inviabilizar o plano.
Enquanto isso, o número de civis mortos aumenta, e a população palestina enfrenta novamente o terror dos bombardeios, o deslocamento forçado e a falta de insumos básicos. Para muitos, o “acordo de paz” já não passa de uma promessa distante. “Queremos apenas paz de espírito, sem medo”, disse Hala Obaid, resumindo o sentimento de uma região que vive entre ruínas e incertezas.
A retomada dos ataques em Gaza reacende questionamentos sobre a eficácia das negociações mediadas pelos EUA e sobre a responsabilidade internacional diante de possíveis crimes de guerra. Para observadores da ONU, a reincidência dos ataques após o cessar-fogo reforça a necessidade urgente de uma solução diplomática sustentável que garanta segurança e dignidade para civis de ambos os lados.
