Governo Trump critica Moraes e Itamaraty reage com defesa da soberania

Retrato do ministro do STF Alexandre de Moraes
DA REDAÇÃO

A relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos vive um de seus momentos mais tensos desde o retorno de Donald Trump à presidência americana. Neste sábado (9), o vice-secretário do Departamento de Estado dos EUA, Christopher Landau, publicou uma mensagem na rede social X, compartilhada também pela embaixada americana, na qual acusou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de exercer um “poder ditatorial” e de “destruir a relação histórica de proximidade entre Brasil e Estados Unidos”. A postagem ainda afirmou que Washington quer “restaurar a amizade histórica com a grande nação do Brasil”.

A declaração foi recebida pelo Itamaraty como um “ataque frontal à soberania” brasileira. Em nota enviada à imprensa, o governo afirmou que manifestou à embaixada dos EUA seu “absoluto rechaço” à ingerência americana em assuntos internos do país, garantindo que reagirá a cada tentativa de pressão ou disseminação de falsidades. O comunicado reforçou que o Brasil “não se curvará” a pressões externas, independentemente de sua origem, e que a democracia brasileira recentemente derrotou uma tentativa de golpe de Estado.

O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, optou por não se pronunciar sobre o episódio. No entanto, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, classificou a manifestação americana como “arrogante” e uma “gravíssima ofensa ao Brasil, ao STF e à verdade”.

O atrito diplomático é apenas o capítulo mais recente de uma crise que se intensificou desde julho, quando Alexandre de Moraes foi incluído na lista de sancionados pela Lei Global Magnitsky, dispositivo que permite ao governo dos EUA bloquear ativos e proibir a entrada de indivíduos acusados de violações de direitos humanos. Além de ter o visto revogado, o ministro viu familiares e aliados também impedidos de entrar no território americano. A iniciativa foi anunciada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, em 18 de julho, após meses de declarações e advertências públicas contra Moraes.

O pano de fundo desse embate é o alinhamento político entre Trump e aliados de Jair Bolsonaro, especialmente o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora atualmente nos EUA. Eduardo tem atuado junto a congressistas republicanos, como Cory Mills, na articulação de medidas contra Moraes. O próprio Eduardo compartilhou a mensagem do Departamento de Estado em suas redes, com um vídeo e a frase: “Os EUA não estão para brincadeira”. Em sua postagem, afirmou que Washington está disposto a “ir às últimas consequências” para remover o que considera “obstáculos ao resgate da liberdade” no Brasil, atacando diretamente o STF.

A escalada diplomática também é reflexo de medidas econômicas e políticas recentes de Trump contra o Brasil. Em 9 de julho, o presidente americano enviou uma carta a Luiz Inácio Lula da Silva anunciando tarifas adicionais de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos EUA, justificando a decisão por motivos políticos, como o tratamento dado pelo Judiciário a Jair Bolsonaro e a empresas de tecnologia americanas. Esse tom foi distinto do adotado nas cartas enviadas a outros líderes globais, que tinham linguagem mais amistosa.

Lula reagiu publicamente, afirmando que “não pode admitir a ingerência de um país na soberania de outro” e criticando a intromissão de Trump no Poder Judiciário brasileiro. A tensão aumentou quando a Casa Branca anunciou uma investigação sobre supostas “práticas comerciais desleais” do Brasil, citando o favorecimento a serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo — sem mencionar diretamente o Pix, mas deixando clara a insatisfação com sua expansão e modelo.

Enquanto as disputas políticas e diplomáticas se intensificam, o cenário interno no Brasil também é marcado por instabilidade. Em 4 de agosto, Moraes decretou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro por descumprimento de medidas cautelares, incluindo a proibição de postar ou utilizar redes sociais de terceiros para difundir mensagens políticas. Segundo o ministro, Bolsonaro utilizou contas de aliados, incluindo a do filho Flávio Bolsonaro, para publicar mensagens de incentivo a manifestações contra o STF e favoráveis à intervenção estrangeira no Judiciário brasileiro.

A decisão incluiu a apreensão de celulares na residência do ex-presidente, proibição de visitas (exceto de familiares próximos e advogados) e reforçou a necessidade de medidas mais duras para evitar a “reiteração delitiva”. A medida provocou reações imediatas entre apoiadores de Bolsonaro e foi interpretada por Washington como mais uma prova de que o Judiciário brasileiro, sob a liderança de Moraes, estaria perseguindo opositores políticos.

Esse conjunto de acontecimentos cria um ambiente diplomático delicado, em que cada declaração pública — seja de Brasília, seja de Washington — pode gerar novas retaliações ou endurecer a postura dos dois lados. Para o Itamaraty, a defesa da soberania nacional se tornou um ponto central, e qualquer tentativa de pressão externa será tratada como afronta direta à autonomia política e institucional do Brasil.

O episódio também reforça o alinhamento político e retórico entre Trump e figuras da oposição brasileira, ao mesmo tempo em que expõe um atrito aberto entre dois chefes de Estado e seus respectivos aliados. Com a aproximação das eleições americanas e a persistência da polarização no Brasil, especialistas preveem que a tensão pode se prolongar, influenciando tanto o comércio bilateral quanto a cooperação em áreas como segurança, tecnologia e política externa.

Para além das sanções e dos embargos, o debate expõe um choque de concepções sobre soberania, independência dos poderes e limites da diplomacia. De um lado, a Casa Branca insiste em enquadrar Moraes como violador de direitos humanos; do outro, o governo brasileiro afirma que essa narrativa é uma tentativa de interferir no funcionamento das instituições democráticas. A continuidade desse embate dependerá de até que ponto cada país está disposto a manter ou ampliar as pressões — e se haverá margem para algum tipo de reaproximação, diante de interesses econômicos e estratégicos que ainda unem as duas nações.