
Em um gesto de forte repercussão política, o governo dos Estados Unidos publicou nesta quinta-feira (29) uma mensagem em português direcionada ao público brasileiro, sinalizando que sanções podem ser aplicadas contra aqueles que considera “inimigos da liberdade”. A postagem foi feita pelo Bureau para Assuntos Ocidentais, órgão vinculado ao Departamento de Estado, e endereçada indiretamente ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após declarações recentes do secretário de Estado, Marco Rubio.
“Que fique claro: nenhum inimigo da liberdade de expressão dos americanos será perdoado”, dizia a mensagem, que gerou imediata repercussão entre autoridades brasileiras e analistas políticos. A publicação foi uma resposta indireta às decisões de Moraes no âmbito do STF, que são vistas pela Casa Branca como violações ao princípio da liberdade de expressão — especialmente no contexto de investigações envolvendo grupos bolsonaristas e supostos ataques às instituições democráticas.
A escalada diplomática ganhou força na última semana, quando Marco Rubio afirmou que havia “grande possibilidade” de Alexandre de Moraes sofrer sanções dos EUA por meio da chamada Lei Magnitsky. Essa lei, aprovada em 2012 e expandida posteriormente, permite que o governo americano imponha restrições a indivíduos acusados de envolvimento em violações de direitos humanos ou corrupção em qualquer lugar do mundo, com medidas como o bloqueio de bens e a revogação de vistos.
Embora a postagem oficial não tenha citado explicitamente Moraes, a referência a “inimigos da liberdade” foi amplamente interpretada como um recado direto ao ministro brasileiro. A embaixada dos Estados Unidos no Brasil rapidamente republicou a mensagem, reforçando o caráter público e oficial do alerta.
A repercussão no Brasil foi imediata e intensa. O Itamaraty, ciente da gravidade da situação, acionou a embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti, para tentar conter o avanço das ameaças de sanção. Viotti buscou reuniões com integrantes do Departamento de Estado, tentando argumentar contra a aplicação das medidas, mas, até o momento, sem sucesso. Ela não conseguiu se encontrar diretamente com Marco Rubio, mas manteve conversas com Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA em Brasília, em busca de um canal de diálogo.
No Brasil, o governo Lula divulgou nota oficial ressaltando que eventuais sanções americanas não podem atingir diretamente o ministro Alexandre de Moraes no território nacional, ainda que a pressão internacional seja vista como um elemento delicado no tabuleiro político. A defesa pública de Moraes também se fortaleceu nos bastidores do STF, onde ministros consideram que as decisões do colega têm respaldo jurídico e visam proteger a democracia diante de ameaças institucionais.
Especialistas em relações internacionais destacam que a postura americana — além de inédita pelo uso do português na postagem oficial — reflete a preocupação de Washington com o que entende como restrições à liberdade de expressão em outros países. A mensagem, segundo analistas, também visa ecoar o discurso de Donald Trump, que busca manter sua base mobilizada e solidária a narrativas de defesa da liberdade de expressão, especialmente em ano eleitoral nos EUA.
Enquanto isso, a movimentação diplomática brasileira segue intensa, com o Itamaraty buscando evitar que a crise se agrave e contamine outros aspectos da relação bilateral entre os dois países. A nota publicada em fevereiro pelo Bureau para Assuntos Ocidentais, acusando o Brasil de promover censura, já havia sinalizado a mudança de tom e o endurecimento do discurso americano em relação a temas internos do Brasil.
