
A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil gerou repercussão ao publicar, nesta quarta-feira (23), uma mensagem em tom inusitado nas redes sociais: usou a icônica imagem do filme E.T. – O Extraterrestre para encorajar imigrantes em situação irregular nos EUA a retornarem voluntariamente aos seus países de origem. Com a frase “Use o aplicativo CBP Home e vá embora agora, com apoio e dignidade”, a campanha utiliza a simbologia do personagem alienígena perdido que quer “voltar para casa” como metáfora para a situação migratória.
A publicação foi acompanhada por orientações práticas: os imigrantes interessados em sair dos Estados Unidos de forma voluntária podem acessar o aplicativo CBP Home, ferramenta desenvolvida pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (Customs and Border Protection), para organizar sua viagem de retorno. O programa garante assistência para a viagem e uma ajuda de custo, além da promessa de um processo “respeitoso e seguro”.
O uso do personagem E.T., um ícone da cultura pop de 1982 dirigido por Steven Spielberg, foi visto por muitos como uma tentativa de suavizar uma política migratória cada vez mais rígida. No entanto, críticos apontaram o caráter irônico e até desrespeitoso da escolha, especialmente em um momento de crescente repressão a imigrantes nos EUA sob o segundo mandato de Donald Trump.
Desde que reassumiu a presidência, Trump tem intensificado o discurso anti-imigratório e ampliado ações de deportação, especialmente contra latinos e africanos em situação irregular. A campanha da embaixada embora se apresente como um incentivo à saída voluntária é vista como parte de um endurecimento sistemático das políticas migratórias, agora com estratégias de comunicação mais “criativas”, mas não menos incisivas.
No Brasil, a publicação rapidamente viralizou, gerando uma série de reações divididas. Enquanto alguns internautas trataram a mensagem com humor e ironia, outros apontaram o tom da campanha como insensível, considerando os desafios enfrentados por milhares de brasileiros que, por falta de oportunidades, buscaram nos EUA melhores condições de vida.
Atualmente, estima-se que mais de 1,7 milhão de brasileiros residem nos Estados Unidos, sendo que uma parcela significativa está em situação migratória irregular. Com a retomada de medidas mais duras por parte da administração Trump, o número de deportações e detenções aumentou em 2025, e há expectativa de que programas de retorno voluntário passem a ser amplamente promovidos como alternativa mais “humanizada”.
A proposta do CBP Home, segundo autoridades americanas, é oferecer uma saída voluntária antes que medidas compulsórias, como prisões e deportações forçadas, sejam aplicadas. A iniciativa também busca reduzir a sobrecarga do sistema de imigração e evitar confrontos públicos, que frequentemente geram comoção e embaraços diplomáticos.
Para especialistas em relações internacionais, a comunicação da embaixada é sintomática de uma mudança no modo como os Estados Unidos pretendem abordar a migração irregular no hemisfério sul. “Ao usar referências da cultura pop e oferecer ajuda financeira, os EUA tentam reconfigurar sua imagem como país que ainda oferece dignidade mesmo ao agir com rigor”, aponta o professor Daniel Ferreira, analista de geopolítica da UNB. “Mas o pano de fundo continua sendo o mesmo: controle rígido de fronteiras e restrição ao ingresso de estrangeiros”, completa.
Ainda assim, alguns consulados e centros de apoio a imigrantes no Brasil relatam aumento no número de contatos de famílias buscando mais informações sobre o retorno voluntário assistido, especialmente após medidas recentes que ampliaram a cooperação entre ICE (agência de imigração americana) e forças locais. Em estados como Massachusetts, Califórnia e Flórida com grandes comunidades brasileiras, relatos de detenções e notificações de saída têm crescido.
Nos bastidores, fontes diplomáticas sugerem que a campanha faz parte de uma estratégia mais ampla da Casa Branca para reduzir o número de imigrantes irregulares sem gerar crises humanitárias ou judiciais. O governo Trump busca com isso mostrar firmeza, mas também capacidade de “resolver o problema com alternativas viáveis”, como indicam os relatórios do Departamento de Segurança Interna.
O uso do filme E.T. como símbolo de retorno ao lar levanta questionamentos sobre a ética na comunicação política migratória. Embora envolva elementos de empatia como a imagem de um ser perdido e saudoso de casa a comparação entre um extraterrestre e imigrantes reais gerou desconforto em comunidades afetadas.
Ao final, a mensagem da embaixada é clara: quem estiver ilegalmente nos EUA tem a opção de sair agora, com auxílio logístico e financeiro, antes que medidas compulsórias sejam adotadas. A dúvida que fica é se campanhas desse tipo serão suficientes para resolver um problema estrutural e humanitário que exige muito mais do que um meme de internet para ser enfrentado.
