China testa IA no vestibular e avança na transformação tecnológica das escolas públicas

DA REDAÇÃO

A China acaba de dar mais um passo ousado em direção ao futuro da educação. O país asiático está utilizando modelos avançados de inteligência artificial (IA) em seu tradicional vestibular nacional, o Gaokao, e ao mesmo tempo promovendo uma ampla transformação tecnológica nas escolas públicas. A medida faz parte de um plano estratégico do governo chinês para consolidar a liderança global em IA e otimizar a qualidade do ensino, especialmente em áreas com menos acesso a recursos pedagógicos tradicionais.

Os testes com IA no vestibular envolvem o uso de algoritmos para corrigir redações, aplicar simulados adaptativos, prever o desempenho de alunos e até mesmo gerar recomendações personalizadas para os estudantes em tempo real. Esse movimento marca a primeira vez que o Gaokao uma das provas mais exigentes e determinantes do mundo integra inteligência artificial de forma oficial no processo de avaliação.

A iniciativa vem sendo implementada em caráter experimental, mas com forte apoio estatal. De acordo com o Ministério da Educação da China, o objetivo é tornar o processo avaliativo mais justo, eficiente e livre de viés humano, sobretudo em provas escritas. Além disso, a expectativa é que o uso de IA contribua para o desenvolvimento de habilidades mais alinhadas às exigências do século XXI.

Mas não para por aí. O projeto vai muito além do vestibular. A China está expandindo o uso da inteligência artificial também nas salas de aula. Plataformas alimentadas por IA estão sendo adotadas em escolas públicas para auxiliar professores, avaliar desempenho acadêmico, propor métodos de ensino personalizados e apoiar a gestão escolar. Com base em grandes volumes de dados, essas ferramentas conseguem identificar lacunas de aprendizagem e sugerir conteúdos sob medida para cada aluno.

Em cidades como Hangzhou, Shenzhen e Pequim, alunos do ensino básico já utilizam assistentes virtuais para tirar dúvidas em tempo real e realizar atividades com correção automatizada. Algumas escolas possuem sistemas que monitoram expressões faciais e padrões de comportamento dos alunos para avaliar engajamento durante as aulas. Essas informações são cruzadas com dados de desempenho para fornecer diagnósticos mais precisos aos educadores.

A aplicação massiva de IA na educação é parte de uma política nacional chamada “Educação Inteligente para Todos”, que busca eliminar desigualdades regionais e democratizar o acesso à aprendizagem de qualidade. A ideia central é que a tecnologia possa compensar a escassez de professores em áreas rurais e remotas, oferecendo suporte personalizado com o auxílio de algoritmos.

Críticos, no entanto, levantam questões sobre privacidade, vigilância e o risco de desumanização do processo educacional. Organizações de direitos civis alertam para o uso excessivo de monitoramento em sala de aula e temem que dados sensíveis de estudantes sejam utilizados sem consentimento adequado. Há ainda o receio de que a automatização acabe reduzindo a liberdade pedagógica dos professores.

O governo chinês, por sua vez, garante que todas as soluções estão sendo adotadas com base em protocolos éticos e respeitando a Lei de Proteção de Dados Pessoais, aprovada em 2021. As autoridades também afirmam que o uso da IA tem como foco principal complementar o trabalho dos professores, e não substituí-los. “A inteligência artificial é uma aliada do professor, uma ferramenta de apoio à prática pedagógica, jamais um substituto humano”, declarou recentemente o vice-ministro da Educação, Wang Zhen.

Internamente, a estratégia chinesa já começa a colher resultados. Em regiões que adotaram o sistema de ensino inteligente, como Sichuan e Jiangsu, houve aumento significativo no índice de aprovação em exames nacionais e melhora no desempenho em disciplinas como matemática e ciências. Além disso, professores relatam que a IA permite focar mais em atividades criativas e no acompanhamento emocional dos alunos, já que tarefas repetitivas ficam a cargo das máquinas.

No cenário global, a China se posiciona como pioneira nesse tipo de abordagem em larga escala. Países como Coreia do Sul, Finlândia e Estônia também testam soluções semelhantes, mas ainda em menor amplitude. Enquanto isso, a potência asiática consolida seu papel de liderança na vanguarda da educação digital.

A aplicação da IA no vestibular também gera repercussão internacional. Especialistas em avaliação educacional observam com interesse o desempenho dos algoritmos chineses, sobretudo em tarefas subjetivas como a correção de redações. Para muitos, trata-se de um experimento de alto risco mas também de enorme potencial transformador.

Com o avanço desse modelo, cresce a expectativa de que outras nações adotem abordagens semelhantes nos próximos anos. A educação personalizada, adaptativa e orientada por dados parece ser o novo horizonte. E a China, como tem feito em diversas frentes tecnológicas, já saiu na frente.