Bolsonaro nega golpe em depoimento ao STF e faz piada com Moraes

A piada de Moraes que arrancou risos de Bolsonaro em sessão do STF |  Metrópoles
DA REDAÇÃO

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) negou nesta segunda-feira (10) qualquer envolvimento em tentativa de golpe de Estado. Em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF), ele declarou que suas declarações polêmicas durante e após o mandato foram apenas “retórica política” e desabafos, e chegou a pedir desculpas pelas afirmações dirigidas a ministros da Corte. A sessão contou com momentos descontraídos, incluindo uma breve piada entre Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes, relator das investigações.

A oitiva ocorreu no âmbito das investigações que apuram uma possível articulação para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e teve como foco principal a reunião ministerial de julho de 2022, na qual Bolsonaro e auxiliares debateram estratégias que foram interpretadas por investigadores como tentativa de ruptura institucional.

Durante o depoimento, Bolsonaro minimizou o conteúdo das falas gravadas e divulgadas pelo STF, alegando que se tratavam de falas “inflamadas”, próprias do clima eleitoral, e que não havia embasamento jurídico ou planejamento real por trás do que foi dito. “Eu falei aquilo no calor da emoção. Não houve ordem, nem articulação. Foi retórica. Se extrapolei, peço desculpas”, afirmou o ex-presidente.

Questionado sobre as críticas feitas ao sistema eletrônico de votação, Bolsonaro recuou em parte do discurso. “Não tenho provas contra nenhum ministro. O que eu fiz foi expressar preocupação com a segurança do processo eleitoral, como qualquer cidadão poderia fazer”, afirmou. Ainda assim, ele voltou a criticar as urnas eletrônicas, reforçando que considera o sistema “opaco” e passível de falhas, mesmo reconhecendo que não apresentou provas concretas sobre fraudes.

Apesar do tom defensivo, a audiência teve momentos inusitados. Ao final de uma das respostas, Bolsonaro brincou: “Mas espero que o senhor não coloque isso na conta do Mensalão, hein, ministro”, em referência a um episódio antigo. Moraes teria sorrido, e o clima momentaneamente descontraído surpreendeu parte da equipe jurídica presente.

A declaração acontece em meio a uma escalada de tensão entre aliados de Bolsonaro e membros do Judiciário, especialmente após a condenação de parlamentares ligados ao ex-presidente por envolvimento nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. O depoimento também ocorre às vésperas do julgamento que pode tornar Bolsonaro inelegível por abuso de poder político e econômico.

Juristas avaliam que a estratégia adotada por Bolsonaro de amenizar o tom e atribuir suas declarações ao calor do momento político é uma tentativa clara de se desvincular de atos mais graves e evitar desdobramentos penais. Ainda assim, membros do STF indicam que o conteúdo das falas passadas, somado aos movimentos de bastidores, como a convocação de militares para reuniões extraordinárias, continuam sob análise.

Na saída do STF, assessores e advogados de Bolsonaro se disseram satisfeitos com o depoimento. “O presidente foi claro, cooperativo e reafirmou seu compromisso com a democracia”, disse um dos defensores. Em nota, a equipe jurídica também reforçou que não há qualquer ato concreto imputável ao ex-presidente que possa configurar tentativa de golpe ou desrespeito à Constituição.

A defesa ainda estuda pedir o arquivamento de parte dos inquéritos em curso, com base no depoimento prestado e na ausência de provas materiais.

A reação de aliados bolsonaristas nas redes sociais foi rápida: muitos classificaram o depoimento como “esclarecedor” e elogiaram a postura “respeitosa” de Bolsonaro diante de Moraes, seu principal antagonista político nos últimos anos. Do outro lado, setores críticos à gestão passada acusaram o ex-presidente de recuar estrategicamente para evitar responsabilizações legais.

O cenário jurídico segue em aberto, mas o episódio reforça a tentativa de Bolsonaro em redesenhar sua imagem política em meio às investigações em curso e à aproximação das eleições municipais de 2026 onde seu apoio pode ser decisivo em diversas capitais do país. A relação com o STF, embora tensa, ganhou um raro momento de descontração, mas segue marcada por embates duros e decisões de impacto nacional.

A audiência marca mais um capítulo da complexa relação entre o ex-presidente e o Judiciário, com novos desdobramentos aguardados nos próximos dias.