
Promessa de US$ 20 bilhões aquece mercado, mas analistas alertam: sem reformas, alívio será apenas temporário
O recente anúncio de uma linha de swap cambial no valor de US$ 20 bilhões (R$ 106,6 bilhões) pelos Estados Unidos à Argentina, sob o governo do presidente Javier Milei, reacendeu o debate sobre a real capacidade do país de retomar a estabilidade econômica. A aproximação estratégica entre Buenos Aires e Washington foi formalizada com apoio direto do secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, e promete ter desdobramentos políticos e financeiros relevantes.
Segundo comunicado, o pacote será oficializado em 14 de outubro, em uma reunião entre Milei e o presidente norte-americano Donald Trump. O gesto diplomático não é isolado: é a segunda ajuda bilionária em seis meses, somando-se ao apoio do FMI, onde os EUA exercem poder decisivo.
Apesar do entusiasmo inicial, o movimento não afasta o ceticismo de economistas. Para Carlos Honorato, professor da FIA Business School, o sucesso da operação depende da combinação de três fatores: governabilidade, reformas estruturais e estabilidade institucional.
“Basta um revés eleitoral, protestos contra a austeridade ou a percepção de ingerência externa para que a confiança se fragilize”, afirma Honorato.
Impacto imediato foi positivo, mas momentâneo
A promessa de apoio financeiro gerou efeito imediato nos mercados. O peso argentino valorizou-se frente ao dólar, ações negociadas nos Estados Unidos subiram, e os títulos internacionais emitidos em dólar registraram alta.
Porém, o alívio parece ser apenas temporário. Dados da consultoria Elos Ayta mostram que o peso argentino foi a moeda que mais se desvalorizou no mundo em 2025, com queda acumulada de 27,4% até setembro. A inflação, segundo o Indec, fechou agosto em 19,5% no acumulado do ano.
Além disso, o risco país, que havia caído para 898 pontos com o anúncio, voltou a subir para 1.264 pontos no início de outubro, sinalizando a volatilidade persistente do ambiente econômico argentino.
Reformas são o verdadeiro teste
Economistas como Patrícia Krause, da Coface América Latina, reforçam que o aporte funciona como paliativo. Ele dá fôlego momentâneo ao peso e evita rupturas bruscas no câmbio, mas não substitui as reformas necessárias para equilibrar contas públicas, reduzir a dependência de commodities e restaurar a confiança de investidores.
“O impacto é simbólico. Sem estabilidade política e reformas sólidas, o alívio financeiro não resolve os problemas estruturais”, alerta Krause.
Alinhamento político estratégico
A forte aproximação entre Milei e Trump também carrega implicações geopolíticas. Com a influência crescente da China na América Latina, os EUA voltam a usar apoio financeiro como instrumento diplomático. Milei, por sua vez, tem reiterado seu alinhamento ao “Ocidente”, posicionando-se como uma barreira ao avanço de regimes autoritários e à influência de Pequim e Moscou.
“Todas as opções estão na mesa para apoiar a Argentina”, declarou Bessent, reforçando o interesse estratégico dos EUA.
Esse novo alinhamento, no entanto, pode gerar percepções internas de perda de autonomia, o que, somado à agenda liberal e de austeridade de Milei, pode provocar resistência social e instabilidade política.
