Acordo Brasil China impulsiona mercado mesmo com reaproximação dos EUA

Brasil e Estados Unidos
DA REDAÇÃO

O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado neste domingo (26) em Kuala Lumpur, na Malásia, reacendeu o diálogo diplomático entre Brasil e Estados Unidos e foi considerado positivo por analistas. Ainda assim, o que realmente tem movimentado os mercados é a expectativa de um possível acordo comercial entre Brasil e China, que pode redefinir o fluxo de capitais e exportações do país. A frase-chave “acordo Brasil China” tem dominado as conversas entre economistas e investidores desde o fim de semana.

O encontro bilateral ocorreu à margem da 47ª cúpula da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e durou cerca de uma hora. Segundo o presidente brasileiro, Trump teria se mostrado disposto a negociar uma solução para as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros desde agosto. A medida foi justificada pelo governo americano como resposta a “desequilíbrios comerciais” e “decisões judiciais brasileiras contrárias a empresas norte-americanas”.

“O compromisso que ele fez é que pretende fazer um acordo de muita boa qualidade com o Brasil. Isso está muito registrado na minha cabeça e na dele”, afirmou Lula após a reunião.

O presidente americano, por sua vez, confirmou o encontro, mas adotou um tom mais cauteloso: “Tivemos uma boa reunião, mas ainda não há certeza sobre a conclusão de um acordo comercial. Vamos ver.”

Impacto político e econômico

A aproximação entre Brasil e Estados Unidos é vista como um passo diplomático relevante, especialmente após meses de tensões geradas pelas tarifas impostas por Washington. No entanto, a percepção do mercado é de que o eixo de crescimento econômico brasileiro pode se fortalecer ainda mais com um entendimento comercial com a China, principal parceiro econômico do país.

De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês especialmente soja, minério de ferro e petróleo. Um acordo bilateral poderia reduzir barreiras alfandegárias e abrir espaço para investimentos chineses em infraestrutura, energia e tecnologia.

“O mercado financeiro já precifica um eventual acordo Brasil-China, que seria muito mais transformador do que a simples reaproximação com os Estados Unidos”, destacou Jasmine Olga, colunista da Forbes Money.

Efeitos imediatos nos ativos

Na segunda-feira (27), a B3 amanheceu em alta, com o Ibovespa subindo 1,3%, impulsionado pelo otimismo em torno da política externa. As ações da Vale e da Petrobras lideraram os ganhos, refletindo a expectativa de maior demanda chinesa por commodities brasileiras.

O dólar também recuou para R$ 5,02, enquanto os juros futuros apresentaram leve queda, indicando maior apetite por risco. Segundo operadores da Faria Lima, a retórica de aproximação entre Lula e Trump foi bem recebida, mas a verdadeira euforia virá caso Pequim e Brasília avancem em negociações concretas nas próximas semanas.

Guerra comercial e contexto global

O cenário atual é marcado por uma guerra comercial tripla envolvendo Estados Unidos, China e Brasil. Desde o início das tarifas americanas, o governo brasileiro tem buscado alternativas para reduzir sua dependência dos EUA, ampliando laços com a Ásia e o Oriente Médio.

Em paralelo, a China zerou em setembro as importações de soja dos Estados Unidos algo inédito em sete anos e aumentou sua compra de commodities brasileiras, movimento que reforçou o papel estratégico do Brasil no fornecimento global de alimentos.

“O mundo observa um realinhamento econômico. O Brasil está numa posição privilegiada, mas precisa agir com pragmatismo. As alianças devem ser pautadas pelo comércio, não pela ideologia”, avaliou Ricardo Amorim, economista e consultor de mercado.

Perspectiva diplomática

Para o Itamaraty, a reunião com Trump representa “um degelo” nas relações, mas o país pretende adotar uma postura multipolar, buscando acordos simultâneos com as grandes potências. A viagem de Lula ao Sudeste Asiático foi vista como estratégica justamente para fortalecer o diálogo com países da Asean, onde o Brasil pleiteia status de parceiro ampliado.

“Estamos abertos a parcerias que tragam benefícios concretos ao povo brasileiro”, afirmou o chanceler Mauro Vieira, em coletiva à imprensa.

Reação internacional

O encontro entre Lula e Trump foi amplamente repercutido pela imprensa americana, que destacou o contraste entre o tom diplomático do presidente brasileiro e a postura imprevisível do líder dos EUA. O jornal The Wall Street Journal classificou a reunião como “um movimento inteligente de Lula para reposicionar o Brasil entre as duas maiores potências do planeta”.

Enquanto isso, em Pequim, o porta-voz do Ministério do Comércio chinês declarou que o país “acompanha de perto os esforços do Brasil para fortalecer laços multilaterais e continua comprometido em aprofundar a cooperação estratégica bilateral”.

Expectativas futuras

Os próximos dias serão decisivos. Lula deve retornar ao Brasil na quarta-feira (29), e há expectativa de que o governo anuncie uma comissão bilateral com a China para discutir tarifas, energia limpa e investimentos em infraestrutura verde proposta que vem sendo trabalhada desde o encontro de Xangai, em julho.

Para os investidores, o cenário é claro: enquanto o diálogo com os EUA traz estabilidade diplomática, o acordo Brasil-China é visto como o verdadeiro motor de crescimento de médio prazo.