
A atividade econômica brasileira apresentou um desempenho acima do esperado em novembro de 2025, mesmo em um ambiente marcado por juros elevados e sinais de desaceleração. Dados divulgados pelo Banco Central do Brasil indicam que o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), avançou 0,7% em relação ao mês anterior, já descontados os efeitos sazonais.
O resultado interrompe uma sequência de dois meses consecutivos de retração e superou com folga as expectativas do mercado financeiro. Pesquisa da Reuters apontava para um crescimento mais moderado, em torno de 0,3%, após quedas registradas nos meses anteriores. A surpresa positiva reacende o debate sobre a resiliência da economia brasileira, mesmo sob uma política monetária restritiva.
Ainda assim, o próprio Banco Central mantém um tom cauteloso em relação ao ritmo de crescimento. A autoridade monetária segue avaliando que o avanço da atividade tende a perder fôlego ao longo de 2026, sobretudo diante do impacto prolongado da taxa básica de juros, que permanece em 15% ao ano, o maior patamar em mais de duas décadas.
A leitura de novembro ocorre em um momento sensível para a condução da política monetária. O Comitê de Política Monetária (Copom) realiza sua primeira reunião de 2026 nos dias 27 e 28 de janeiro, e a expectativa predominante no mercado é de manutenção da Selic. Investidores e analistas acompanham atentamente o comunicado em busca de sinais mais claros sobre quando poderá ter início um ciclo de cortes nos juros.
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, o desempenho da atividade econômica, aliado aos dados recentes de inflação, praticamente elimina qualquer possibilidade de redução da Selic já na reunião de janeiro. A inflação medida pelo IPCA subiu 0,33% em dezembro e encerrou 2025 com alta acumulada de 4,26%, acima do centro da meta de 3%, ainda que abaixo do teto de tolerância de 4,5%.
Apesar disso, parte do mercado avalia que as condições para uma flexibilização gradual da política monetária começam a se formar. A expectativa mais disseminada é de que eventuais cortes nos juros possam ocorrer a partir de março, caso os indicadores de inflação e atividade confirmem um processo consistente de desaceleração.
A abertura dos dados do Banco Central mostra que o crescimento de novembro foi puxado principalmente pelos setores de indústria e serviços. A indústria registrou alta de 0,8% em relação a outubro, enquanto o setor de serviços avançou 0,6%. Em contrapartida, a agropecuária apresentou retração de 0,3% no mesmo período, refletindo fatores sazonais e ajustes após um ano de desempenho robusto.
No entanto, os números do BC contrastam com os dados divulgados pelo IBGE, que apontaram um cenário mais fraco para novembro. Segundo o instituto, o volume de serviços recuou 0,1%, interrompendo uma sequência de nove meses de crescimento. A produção industrial, por sua vez, ficou estagnada no mês.
O destaque positivo nos indicadores do IBGE ficou por conta do varejo. As vendas cresceram 1,0% em novembro, resultado acima das projeções do mercado e sinal de que o consumo das famílias segue sustentado, em parte, pelo mercado de trabalho aquecido e pela renda real em patamares elevados.
Essa divergência entre os indicadores do Banco Central e do IBGE é recorrente e reflete diferenças metodológicas. Enquanto o IBC-Br utiliza proxies para estimar o desempenho dos principais setores da economia, os dados do IBGE são baseados em pesquisas setoriais específicas. Por isso, analistas costumam avaliar ambos os conjuntos de dados de forma complementar.
Na comparação com novembro de 2024, o IBC-Br registrou crescimento de 1,2%. Já no acumulado de 12 meses, a alta foi de 2,4%, segundo números não dessazonalizados. Os dados reforçam a percepção de que a economia brasileira ainda opera em um nível razoável de atividade, mesmo com sinais de moderação à frente.
As projeções mais recentes do mercado, compiladas na pesquisa Focus do Banco Central, indicam expectativa de crescimento de 2,26% para o PIB em 2025. Para 2026, a estimativa cai para 1,80%, refletindo os efeitos defasados da política monetária restritiva e um ambiente global menos favorável para economias emergentes.
Especialistas avaliam que o desafio do Banco Central será calibrar o ritmo de eventual afrouxamento monetário sem comprometer o processo de convergência da inflação à meta. Um corte prematuro nos juros poderia reacender pressões inflacionárias, enquanto uma manutenção prolongada da Selic em níveis elevados pode aprofundar a desaceleração da atividade nos próximos trimestres.
O desempenho de novembro, portanto, não altera de forma estrutural o cenário prospectivo, mas adiciona complexidade à leitura conjuntural. A economia brasileira mostra capacidade de reação pontual, mesmo sob condições financeiras apertadas, ao mesmo tempo em que convive com sinais claros de perda gradual de dinamismo.
Para o Banco Central, o equilíbrio entre crescimento e controle inflacionário segue como o principal desafio de 2026. O dado positivo do IBC-Br reforça que a atividade ainda resiste, mas não afasta a expectativa de um ano marcado por crescimento mais moderado e decisões monetárias cautelosas.
