China amplia energia a carvão em 2026 apesar da liderança em renováveis

O país que lidera em energias renováveis também é um dos que segue investindo fortemente em combustíveis fósseis (AFP/AFP)
DA REDAÇÃO

A China, líder global em investimentos em energias renováveis, abrirá 85 novas usinas a carvão em 2026, segundo dados recentes do setor energético internacional. A decisão expõe a complexidade da transição energética chinesa e reacende o debate sobre o papel do carvão na matriz elétrica do país, mesmo diante de compromissos climáticos e avanços expressivos em fontes limpas.

Atualmente, dos 63 gigawatts (GW) de capacidade de geração a carvão em construção no mundo, 55 GW estão concentrados na China, evidenciando a centralidade do país nesse tipo de expansão. Ao mesmo tempo, Pequim mantém 212 GW de capacidade prevista em projetos de energias renováveis, incluindo solar, eólica e hidrelétrica, consolidando sua posição como maior investidor global em energia limpa.

A coexistência desses dois movimentos reflete a estratégia energética chinesa, que busca equilibrar segurança no fornecimento, crescimento econômico e metas ambientais. O carvão segue sendo considerado uma fonte estável e essencial para sustentar a demanda industrial e urbana, especialmente em períodos de pico de consumo ou instabilidade climática que afetam fontes renováveis intermitentes.

Autoridades chinesas argumentam que as novas usinas a carvão funcionam como uma espécie de “reserva estratégica” do sistema elétrico, garantindo estabilidade e evitando apagões, como os registrados em anos anteriores. Além disso, parte dessas unidades utiliza tecnologias mais modernas, com maior eficiência e menor emissão relativa de poluentes, embora ainda sejam intensivas em carbono.

Apesar disso, a decisão gera críticas de ambientalistas e analistas climáticos. Especialistas apontam que a ampliação da capacidade a carvão pode comprometer os esforços globais para limitar o aquecimento global e atingir as metas do Acordo de Paris. A China é atualmente o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, e qualquer expansão no uso de carvão tem impacto direto nas emissões globais.

Por outro lado, o país também lidera de forma isolada a expansão das renováveis. Somente em projetos planejados e em desenvolvimento, a China concentra mais capacidade renovável do que os Estados Unidos e a União Europeia somados. A rápida instalação de parques solares e eólicos, além de investimentos em armazenamento de energia e redes inteligentes, demonstra um avanço estrutural na matriz energética.

Analistas avaliam que a estratégia chinesa não é de substituição imediata, mas de transição gradual. O carvão segue como base do sistema no curto e médio prazo, enquanto as renováveis ganham espaço progressivamente. O desafio está em conciliar essa abordagem com a urgência climática global e a pressão internacional por redução acelerada das emissões.

A decisão também tem implicações geopolíticas. Como principal fabricante mundial de equipamentos solares, turbinas eólicas e baterias, a China se posiciona como protagonista da economia verde global, ao mesmo tempo em que mantém o controle interno sobre sua segurança energética por meio do carvão. Esse duplo papel gera críticas, mas também reforça a autonomia estratégica do país.

Economistas destacam que o carvão ainda é relevante para regiões chinesas fortemente dependentes da mineração e da geração térmica, onde a transição energética envolve impactos sociais e econômicos significativos. A abertura de novas usinas atende, em parte, a interesses locais e à manutenção de empregos, um fator sensível para o governo central.

No cenário internacional, a ampliação das usinas a carvão chinesas ocorre enquanto diversos países desenvolvidos aceleram o fechamento de plantas térmicas e ampliam metas de descarbonização. Essa diferença de ritmo reforça o debate sobre responsabilidades diferenciadas entre economias desenvolvidas e emergentes na luta contra as mudanças climáticas.

A China mantém o compromisso oficial de atingir o pico de emissões antes de 2030 e a neutralidade de carbono até 2060. No entanto, especialistas alertam que decisões como a abertura de dezenas de usinas a carvão tornam esse caminho mais complexo e exigirão esforços ainda maiores nas próximas décadas para compensar as emissões adicionais.

O movimento de 2026 evidencia que a transição energética chinesa não segue uma trajetória linear. O país avança rapidamente em renováveis, mas continua apostando em fontes fósseis para garantir estabilidade e crescimento. O equilíbrio entre esses dois vetores será decisivo não apenas para o futuro energético da China, mas também para os rumos da política climática global.