Chacina no Rio: Lula defende investigação federal e critica operação “desastrosa”

Lula classifica megaoperação no RJ como “desastrosa” e diz que houve  "matança" - BandNews

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente a operação policial no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos, classificando o episódio como uma “matança” e uma ação “desastrosa”. Em entrevista à imprensa internacional nesta terça-feira (4), o presidente defendeu a participação da Polícia Federal (PF) na investigação, para garantir imparcialidade e transparência no processo. A frase-chave “chacina no Rio” define o foco central da repercussão política e social do caso.

“A decisão do juiz era uma ordem de prisão, não uma ordem de matança, e houve matança”, declarou Lula, ao comentar as circunstâncias da operação.

O presidente afirmou que o governo federal está articulando a inclusão de peritos da PF no caso e que pretende acompanhar de perto as apurações. O Supremo Tribunal Federal (STF) realizará nesta quarta-feira (5) uma audiência para discutir os desdobramentos da operação.

Operação Contenção: 121 mortos e questionamentos sobre abusos

A chamada Operação Contenção, realizada na última terça-feira (28), mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares nos complexos do Alemão e da Penha, zonas de maior domínio do Comando Vermelho (CV). O objetivo era prender Edgar Alves Andrade, o Doca, apontado como líder da facção criminosa na região.

Apesar da megaoperação, Doca segue foragido, e o governo estadual admitiu o fracasso em capturá-lo. O saldo, no entanto, foi trágico: 121 mortos, incluindo quatro policiais.

Nos dias seguintes, moradores encontraram dezenas de corpos em áreas de mata conhecidas como Vacaria, na Penha. Relatos colhidos pela Ouvidoria da Defensoria Pública do Rio e por organizações de direitos humanos apontam possíveis execuções, desaparecimentos e violações de direitos civis.

“É importante verificar em que condições essa operação se deu, porque até agora temos apenas a versão da polícia e do governo do estado. Há pessoas que querem saber se tudo ocorreu da forma como foi relatado”, afirmou Lula.

Reações e contexto político

A fala de Lula marca uma mudança de tom em relação ao discurso do governador Cláudio Castro (PL), que chegou a classificar a operação como “bem-sucedida”, afirmando que “as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos”. A declaração gerou forte repercussão entre juristas, ativistas e parlamentares, que pedem responsabilização e investigação federal sobre o caso.

A Organização das Nações Unidas (ONU) já havia se manifestado antes da fala de Lula, pedindo uma investigação independente para “garantir responsabilização, interromper violações de direitos humanos e assegurar proteção às testemunhas e familiares das vítimas”.

O presidente reforçou que o Brasil não pode tolerar execuções sumárias, mesmo em operações contra o crime organizado.

“A segurança pública deve ser feita com inteligência, e não com massacre”, disse Lula, em referência direta às mortes ocorridas na ação.

Ação e resposta da sociedade civil

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro informou que segue coletando depoimentos de familiares e sobreviventes. O órgão apura relatos de invasões de residências, desaparecimentos e execução de suspeitos desarmados.

Paralelamente, entidades de direitos humanos e parlamentares da oposição pedem que o Ministério Público Federal (MPF) atue no caso, junto com peritos da PF, para evitar manipulação de provas.

Nas redes sociais, o tema dominou o debate público sob a hashtag #ChacinaDoRio, com cidadãos, artistas e organizações pedindo justiça.

Impacto internacional e COP30

A entrevista de Lula foi concedida pouco antes de sua viagem para Belém (PA), onde participará da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O episódio no Rio deve repercutir entre líderes internacionais, principalmente diante da postura do governo brasileiro de se comprometer com direitos humanos e governança social.

O caso reacende a discussão sobre o modelo de segurança pública no Brasil, frequentemente criticado por ações letais em comunidades periféricas. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estado do Rio de Janeiro lidera o ranking de mortes decorrentes de intervenções policiais no país.

“O Estado não pode agir como o crime que combate. A sociedade quer justiça, não vingança”, afirmou um assessor da Presidência sob condição de anonimato.

Próximos passos

Com a repercussão internacional e a pressão de órgãos civis, o governo federal deve anunciar ainda nesta semana a formação de um grupo de trabalho interministerial para acompanhar o caso. O grupo reunirá representantes do Ministério da Justiça, Direitos Humanos e Segurança Pública, além da Polícia Federal e do STF.

Enquanto isso, as comunidades do Alemão e da Penha seguem em luto e com medo de novas ações. Familiares ainda buscam identificar corpos no Instituto Médico Legal (IML), enquanto relatos de desaparecidos continuam a surgir.