
O aviso Casa Branca ecoou no plenário do Supremo e no tabuleiro da diplomacia. Em meio aos votos no julgamento de Jair Bolsonaro, a secretária de imprensa Karoline Leavitt afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, “não tem medo de usar o poder econômico e o poder militar” para proteger a liberdade de expressão em outros países. A frase, dita em coletiva na terça-feira (9), foi percebida em Brasília como um novo componente da crise. No entanto, a própria porta-voz também declarou que não há medidas adicionais anunciadas contra o Brasil até o momento.
A fala não ocorreu no vazio. O julgamento de Bolsonaro entrou na reta final nesta quinta (11), com a ministra Cármen Lúcia iniciando seu voto após a divergência aberta por Luiz Fux. Até agora, Alexandre de Moraes e Flávio Dino votaram pela condenação em todos os pontos; Fux absolveu Bolsonaro, mas defendeu punir Mauro Cid e Walter Braga Netto em parte das acusações. A conclusão pode sair até sexta (12), com definição de penas para o “núcleo 1” do caso.
O pano de fundo é uma escalada bilateral pouco usual. Em julho, o governo Trump sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky e anunciou tarifa de 50% para um amplo conjunto de exportações brasileiras — com exclusões setoriais relevantes, ligando a medida a críticas ao processo contra Bolsonaro. Documentos oficiais do Tesouro e da Casa Branca, além de despachos da Reuters, detalham as ações e seu alcance.
Nesse contexto, o aviso Casa Branca amplifica ruídos. A pergunta que o motivou mencionava “medidas adicionais contra Europa e Brasil”. Leavitt respondeu de forma ampla, citando instrumentos econômicos e militares em defesa da liberdade de expressão. Contudo, reforçou que não há anúncio novo dirigido ao Brasil naquele momento. A CNN Brasil registrou as duas partes da resposta, o que ajuda a calibrar a leitura do risco imediato.
No Supremo, os votos revelam uma divisão de ênfase. Moraes, relator, vê Bolsonaro como líder de uma organização criminosa voltada a reverter o resultado de 2022. Dino acompanhou a condenação, embora com gradações de pena para alguns réus. Fux abriu uma dissidência ampla para absolver o ex-presidente, mas manteve posição de condenar dois auxiliares em tipo penal específico. A ministra Cármen Lúcia pode formar maioria, e o voto de Cristiano Zanin encerrará a fase. Agências internacionais relatam que, caso condenado, Bolsonaro enfrenta um teto de punição elevado, além de já estar inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral.
O impacto diplomático é real. Desde julho, tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras passaram a fazer parte do arsenal norte-americano. Estimativas de governo indicaram a fatia afetada e as exclusões. A ofensiva incluiu sanções financeiras contra Moraes e restrições de visto, com efeitos colaterais discutidos por bancos e empresas que operam com dólar. Tudo isso pressiona Brasília em um momento de julgamento sensível e aumenta a incerteza sobre fluxos comerciais.
Mesmo assim, é prudente separar sinal de ruído. A coletiva de 9 de setembro não cravou sanções novas contra o Brasil. Foi uma mensagem política, dura, à la Trump. Porém, carece de decreto ou ordem executiva adicional. A diplomacia brasileira tende a explorar essa margem. Além disso, há o fator interno: qualquer uso eventual do “poder econômico” tem graus, exceções e janelas de negociação. As próprias tarifas de julho vieram com listas de exclusão.
No Supremo, o centro da disputa é jurídico. A Procuradoria-Geral da República enquadrou Bolsonaro em cinco crimes, incluindo tentativa de golpe e organização criminosa. A cronologia pós-2022, as lives e os atos de 8 de janeiro compõem o quadro probatório que sustenta os votos pela condenação. A defesa, por sua vez, contesta a competência do STF, a tipificação e o nexo entre falas, planos e execuções. A dissidência de Fux deu fôlego a parte desses argumentos. Ainda assim, o placar tende a se resolver por maioria simples na Primeira Turma.
A fala da Casa Branca foi recebida com leituras opostas. Para aliados de Bolsonaro, ela legitima o discurso de que há cerceamento de expressão no Brasil e de que Washington pode agir. Para críticos, trata-se de pressão indevida em tema de soberania judicial. Analistas lembram que, no auge da tensão, cabe ao Itamaraty isolar o contencioso e buscar canais técnicos para diluir tarifas e desatar nós financeiros. Em público, o governo tende a dizer que não aceita interferência e que o Judiciário decide com base nas provas.
A pergunta central agora é como cada peça afeta a outra. O julgamento no STF corre com calendário próprio. O contencioso comercial com os EUA, por sua vez, avança entre decretos, exceções e contestações possíveis em tribunais americanos e na OMC. Já a arena política tratará de transformar cada voto em munição narrativa. A consequência prática, portanto, dependerá menos do barulho e mais da letra final do acórdão, dos termos de eventuais novas ordens executivas em Washington e da habilidade de negociação entre os dois governos.
Para o investidor, o sinal é de cautela. A combinação entre processo penal do ex-presidente, ambiente institucional em estresse e tarifa externa elevada compõe um cenário volátil. Ainda que não haja medida nova anunciada pela Casa Branca nesta semana, a lembrança do pacote de julho segue precificando riscos. E cada voto no Supremo realimenta expectativas, sejam elas de pacificação, sejam de prolongamento da crise.
No curto prazo, três movimentos merecem atenção. Primeiro, o desfecho na Primeira Turma e a eventual fixação de penas. Segundo, a resposta formal do governo brasileiro às tarifas e às sanções, incluindo passos na OMC e tentativas de blindar setores sensíveis. Terceiro, a calibragem da comunicação da Casa Branca, que pode esfriar ou aquecer o ambiente. Tudo isso exigirá leitura fria dos fatos, sem inflar palavras que ainda não viraram decreto.
Por fim, convém registrar o óbvio: aviso Casa Branca não é sentença. Ele pesa no ambiente, influencia o câmbio do discurso e mexe com expectativas. Porém, o que muda a vida das pessoas e das empresas são decisões com força normativa no Diário Oficial de lá e no Diário da Justiça de cá. Até lá, o país seguirá olhando para dois púlpitos: o da Suprema Corte e o da Sala de Imprensa da Pennsylvania Avenue.
