Corrida bilionária em software exige US$ 58 bi no Brasil

DA REDAÇÃO

A indústria brasileira de software está no centro de uma corrida bilionária por inovação tecnológica, com uma demanda estimada em mais de US$ 58 bilhões em investimentos nos próximos anos. Os números foram divulgados em relatório recente da IDC Brasil e reforçam o posicionamento do país como o 9º maior mercado de software e serviços de TI do mundo, com um crescimento médio superior a 10% ao ano, mesmo em meio a um cenário global desafiador.

O avanço tecnológico tem se mostrado um dos principais vetores de transformação econômica e competitiva em todos os setores produtivos. Do agronegócio à saúde, da logística ao setor financeiro, as soluções baseadas em software são hoje fundamentais para automação, análise de dados, inteligência artificial e integração de sistemas. Com o aumento da digitalização no Brasil impulsionada em parte pela pandemia de Covid-19 e agora consolidada como tendência estrutural o setor de tecnologia se tornou um dos principais destinos de capital de risco e de grandes fundos institucionais.

De acordo com o levantamento, a maior parte da demanda está concentrada em soluções corporativas e infraestrutura crítica para digitalização, como plataformas em nuvem, segurança cibernética, sistemas ERP, CRM, além de softwares de análise de dados e inteligência artificial. A IDC projeta que, para que o país mantenha sua posição de destaque no ranking global e atenda à demanda das empresas brasileiras por transformação digital, será necessário triplicar os investimentos médios anuais em software e inovação até 2030.

O estudo também destaca que grandes empresas brasileiras já movimentam mais de R$ 250 bilhões por ano em projetos digitais, mas ainda enfrentam gargalos estruturais como escassez de mão de obra qualificada, baixa maturidade digital de pequenas e médias empresas, e dificuldade de acesso a crédito para startups e empresas emergentes. A situação é agravada por uma alta carga tributária e por uma legislação que muitas vezes não acompanha a velocidade da inovação.

Entre os setores que mais puxam essa demanda estão o financeiro (com bancos e fintechs acelerando adoção de IA e automação), o agronegócio (com plataformas de gestão de lavouras, sensores e drones integrados), e a indústria (com foco em IoT e controle de produção). O varejo e a logística também aparecem com forte demanda por soluções omnichannel, rastreamento em tempo real e análise preditiva de comportamento do consumidor.

O Brasil, embora destaque regional, ainda investe menos em tecnologia proporcionalmente ao seu PIB do que países como Estados Unidos, China, Alemanha e Índia. Especialistas alertam que, sem um plano estruturado de fomento ao setor, o país corre o risco de perder relevância tecnológica e competitiva nos próximos anos. Em contrapartida, o crescimento acelerado da indústria tem gerado oportunidades inéditas de negócio, emprego e internacionalização de soluções brasileiras, principalmente no campo de SaaS (Software as a Service).

O ecossistema de startups de tecnologia, em especial, mostra fôlego renovado. Mesmo após o “inverno das startups” que marcou os anos de 2022 e 2023, com retração nos investimentos, 2024 e 2025 demonstram retomada da confiança, com fundos de venture capital voltando a mirar o Brasil, especialmente nas áreas de edtech, healthtech, legaltech e govtech. Programas como o Brasil Mais Digital e iniciativas do BNDES para fomento à inovação têm contribuído para essa recuperação.

Segundo a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), o setor de TI deve gerar cerca de 800 mil novas vagas até 2027, com destaque para cargos como desenvolvedores full stack, cientistas de dados, analistas de segurança e engenheiros de nuvem. No entanto, a formação desses profissionais não tem acompanhado o ritmo da demanda. Universidades e centros de formação técnica estão sendo pressionados a adaptar seus currículos e acelerar parcerias com empresas para formação continuada.

O governo federal estuda novas políticas de incentivo, como a ampliação de créditos fiscais para inovação e a criação de polos tecnológicos em regiões com potencial de crescimento. Algumas cidades, como Recife, Florianópolis e Campinas, já despontam como hubs de tecnologia com presença internacional, mas ainda são exceções em um país de dimensões continentais.

Outro desafio citado no relatório é a infraestrutura digital, especialmente no que diz respeito à conectividade e ao acesso à internet de alta velocidade. Sem uma base sólida de infraestrutura, principalmente em regiões fora dos grandes centros, empresas locais perdem capacidade de competir e escalar seus negócios digitais. A chegada do 5G e o avanço de redes ópticas de última geração são vistas como fundamentais para viabilizar a próxima onda de inovação baseada em computação em nuvem e edge computing.

A corrida bilionária em software no Brasil não é apenas uma disputa tecnológica, mas uma batalha estratégica que definirá o posicionamento do país na economia global das próximas décadas. Com investimentos adequados, políticas públicas coordenadas e maior articulação entre empresas, academia e Estado, o país tem potencial para liderar na América Latina e exportar tecnologia de ponta. Mas sem foco e agilidade, poderá ficar à margem da nova revolução digital.