Terra gira mais rápido e 9 de julho será o dia mais curto do ano

DA REDAÇÃO

A rotação do planeta Terra tem apresentado comportamento incomum nos últimos anos, e nesta quarta-feira, 9 de julho de 2025, será registrado oficialmente o dia mais curto do ano. De acordo com especialistas, o planeta completará seu giro em torno do próprio eixo com 1,30 milissegundo a menos que as tradicionais 24 horas. Apesar de imperceptível para os seres humanos, essa diminuição temporal tem despertado a atenção da comunidade científica global.

Desde 2020, o fenômeno tem sido observado com mais frequência. Um dos recordes mais recentes ocorreu em 5 de julho deste mesmo ano, quando o planeta girou 1,66 milissegundo mais rápido. O que pode parecer irrisório tem, na verdade, impactos concretos em tecnologias como GPS e sistemas de comunicação via satélite, que dependem de extrema precisão para operar corretamente.

O comportamento rotacional da Terra não é exatamente regular. Embora o planeta, ao longo de milhões de anos, venha desacelerando sua rotação com dias mais curtos no passado remoto e mais longos no presente –, variações pontuais e contrárias também ocorrem. Segundo Fernando Roig, diretor do Observatório Nacional, essa aceleração momentânea pode ser explicada, em parte, por forças complexas como a movimentação do núcleo da Terra, alterações nas massas oceânicas, oscilações atmosféricas e até pela influência gravitacional da Lua.

O fenômeno é conhecido na astrofísica como “anomalia de rotação” e, embora não represente risco iminente, desafia os modelos tradicionais usados para calcular o tempo com base na rotação terrestre. “Desde que a internet e os satélites passaram a depender de sincronia milimétrica, essas mudanças mesmo que em milissegundos se tornaram relevantes”, afirma Graham Jones, do site especializado timeanddate.com.

Outros dias curtos estão previstos ainda para este ano: em 22 de julho e 5 de agosto, por exemplo, a Terra deverá girar 1,38 e 1,51 milissegundo mais rápido, respectivamente. Em 2022, o recorde absoluto havia sido de -1,59 milissegundo. Isso significa que a tendência, ao menos nos últimos anos, tem sido de uma aceleração incomum, desafiando os prognósticos feitos no início do atual ciclo solar.

A professora Hannah Fry, da Universidade de Cambridge, explica o fenômeno com um toque de humor: “Estamos em uma pedra desengonçada flutuando no espaço”. Para ela, o planeta nunca foi uma referência confiável para medir o tempo. De fato, há 430 milhões de anos, um ano terrestre tinha 420 dias, uma prova de que o ritmo de rotação já sofreu drásticas mudanças ao longo das eras geológicas.

Leonid Zotov, da Universidade Estatal de Moscou, defende que há algo ainda não totalmente compreendido no interior da Terra que pode estar provocando esse padrão recente. O cientista trabalha em modelos avançados para tentar identificar se há alguma interferência vinda do manto ou do núcleo líquido do planeta.

Já o filósofo Julian Baggini destaca que a forma como os seres humanos percebem o tempo difere radicalmente da ciência. “Para nós, o tempo tem passado, presente e futuro. Mas, na Física, isso não existe”, afirma. Segundo ele, esses fenômenos ajudam a lembrar que a própria noção de tempo é, em parte, uma construção da mente humana.

A aceleração da rotação da Terra não é um evento catastrófico, mas exige atenção. Cientistas do mundo inteiro têm intensificado pesquisas para entender suas causas e prever suas consequências, sobretudo no contexto da crescente dependência tecnológica global. Numa era onde milissegundos importam, cada anomalia rotacional se transforma em assunto prioritário para a astrofísica moderna.

Enquanto isso, a humanidade segue sua rotina sem notar que a quarta-feira de 9 de julho de 2025 será a mais curta do ano e talvez uma das mais rápidas da história recente da Terra. E, ainda que nossos relógios continuem marcando as mesmas 24 horas, a ciência nos lembra que o tempo, afinal, é tão fluido quanto os movimentos invisíveis do nosso planeta.