
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (9) a imposição de uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, em medida que promete impactar profundamente as relações comerciais entre os dois países. Em uma carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump justificou a decisão com base em acusações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e em apoio declarado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A nova tarifa entra em vigor a partir de 1º de agosto de 2025 e incidirá sobre todos os produtos brasileiros que entrarem em solo norte-americano, de forma adicional às tarifas já existentes por setor. A carta, divulgada pela Casa Branca por meio da plataforma Truth Social, gerou reação imediata no governo brasileiro, que afirmou que responderá com base na Lei da Reciprocidade Econômica e rejeitou qualquer tentativa de tutela internacional sobre decisões internas do Judiciário.
No texto, Trump argumenta que o Brasil tem “prejudicado os Estados Unidos por anos” com tarifas e barreiras comerciais e que a decisão visa “corrigir uma relação injusta e um déficit comercial inaceitável”. Contudo, os dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento do Brasil contradizem essa alegação: desde 2009, o país acumula sucessivos déficits comerciais com os EUA, o que significa que compra mais do que vende aos americanos há mais de 15 anos. Até junho de 2025, o saldo negativo já somava mais de US$ 90 bilhões.
O republicano, porém, optou por usar o momento para enviar recados políticos. Em sua carta, cita diretamente o julgamento de Jair Bolsonaro no STF como uma “vergonha internacional”, diz que o tribunal está atacando a liberdade de expressão dos americanos e acusa o Brasil de emitir “ordens de censura secretas e ilegais” contra plataformas de mídia social dos Estados Unidos. Afirmou ainda que sua decisão é também uma forma de protesto contra o que chamou de “ações antidemocráticas do Brasil”.
Lula reagiu duramente. Em declaração oficial, o presidente afirmou que “o Brasil não aceitará ser tutelado por ninguém, muito menos por quem tenta usar a economia para interferir nas instituições democráticas do nosso país”. O petista destacou que o julgamento dos responsáveis pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 é tema exclusivo do Poder Judiciário brasileiro e que “todas as medidas unilaterais serão respondidas com firmeza e dentro da legalidade internacional”.
O Itamaraty informou, inclusive, que devolveu a carta de Trump à embaixada dos EUA em Brasília, por considerar seu conteúdo inaceitável do ponto de vista diplomático. A chancelaria classificou a comunicação como “interferência direta em assuntos internos do Brasil”.
Para além do impacto imediato sobre produtos brasileiros que já enfrentam tarifas altas, como aço e alumínio – a medida pode gerar repercussões mais amplas na diplomacia internacional e no comércio global. Especialistas apontam que a atitude de Trump marca um novo patamar de tensão na relação entre os dois países, com forte componente geopolítico.
Segundo o economista e professor de Relações Internacionais Ricardo Sobral, da UFRJ, “a atitude do presidente americano tem pouco a ver com o comércio em si e muito mais com seu projeto político pessoal. Ele busca consolidar uma base eleitoral com discurso nacionalista, mesmo que para isso tenha que afrontar dados econômicos e alianças comerciais tradicionais”.
Trump também já usou medidas semelhantes no passado, como parte de sua política de “América Primeiro”. Em seu primeiro mandato, impôs sanções e tarifas à China, México e União Europeia, gerando retaliações e provocando instabilidade nas cadeias globais de suprimento. A carta enviada a Lula parece seguir o mesmo modelo de pressão e confronto, com o objetivo de impor influência sobre decisões externas e promover o alinhamento ideológico com governos que considera aliados.
Bolsonaro, por sua vez, agradeceu a Trump em publicação nas redes sociais e disse que a atitude demonstra “quem realmente defende a liberdade e a democracia no mundo”. O ex-presidente ainda afirmou que o julgamento no STF é “político” e que sofre perseguição “por ter vencido a esquerda”.
Analistas de comércio exterior já avaliam os possíveis prejuízos à indústria brasileira. Setores como o agronegócio, siderurgia, metalurgia, máquinas e automóveis são os mais expostos ao mercado americano. Se confirmadas as tarifas, a perda anual pode ultrapassar os R$ 30 bilhões, dependendo da elasticidade dos contratos e da capacidade de desvio de produtos para outros mercados, como União Europeia e Ásia.
A medida também pode ter efeito dominó sobre os investimentos estrangeiros no Brasil. Empresas multinacionais que exportam ao mercado americano a partir de fábricas instaladas no Brasil poderão repensar sua logística e sede de produção, deslocando operações para países com menores barreiras tarifárias.
Enquanto isso, o governo brasileiro estuda medidas de retaliação, inclusive tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Fiesp emitiram notas cobrando uma reação firme e imediata do Executivo para proteger a competitividade das empresas nacionais.
Resta saber como essa escalada diplomática se desenvolverá nas próximas semanas, mas é certo que a relação Brasil-EUA entra em um de seus momentos mais tensos desde a redemocratização brasileira. A retórica eleitoral de Trump, combinada com interesses econômicos e ideológicos, já afeta diretamente as exportações brasileiras e pode provocar repercussões ainda maiores no cenário global.
