
As tensões comerciais entre China e Estados Unidos ganharam novo contorno em maio de 2025 com o aumento vertiginoso nos custos de frete marítimo. A rota Xangai–costa oeste dos EUA, considerada uma das principais artérias do comércio global, registrou alta de mais de 300% nos preços de transporte por contêiner. A disparada é resultado direto da incerteza tarifária provocada pelas recentes medidas do governo norte-americano, aliada a um crescimento súbito na demanda por embarques de exportadores chineses.
O fenômeno reflete uma corrida das empresas para antecipar envios antes da entrada em vigor de novas tarifas retaliatórias, anunciadas pelo governo do presidente Donald Trump. A medida faz parte do pacote de revisão da política comercial com a China, que prevê aumentos escalonados de impostos sobre produtos industriais, eletrônicos e bens de consumo.
Empresas dos dois lados do Pacífico estão reavaliando estratégias logísticas e de estoque. Segundo dados da Shanghai Shipping Exchange, o custo para transporte de um contêiner de 40 pés ultrapassou US$ 5.200, contra uma média de US$ 1.200 em abril. As reservas de espaço nos navios estão próximas da saturação, e transportadoras reportam listas de espera para agendamento de novos embarques.
O cenário atual remete ao caos logístico observado durante a pandemia de Covid-19, quando cadeias de suprimentos foram severamente impactadas. Porém, desta vez, o principal fator de desequilíbrio é político. O temor de que a escalada tarifária atinja patamares inéditos tem impulsionado a formação de estoques antecipados, sobretudo no setor de eletroeletrônicos, vestuário e componentes automotivos.
De acordo com a consultoria Drewry, o movimento é particularmente visível em portos chineses como Ningbo, Shenzhen e Guangzhou, que registram aumento expressivo no volume de cargas aguardando embarque para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, portos norte-americanos como Long Beach e Los Angeles relatam gargalos no desembaraço aduaneiro, pressionados pela chegada simultânea de milhares de contêineres.
Especialistas afirmam que a continuidade deste cenário pode agravar os custos para o consumidor final americano. “Uma cadeia logística pressionada, somada a tarifas elevadas, gera inflação de produtos importados”, diz Andrew Kaplan, analista da Global Trade Insights. Ele ressalta que empresas pequenas, com menor poder de negociação, serão as mais afetadas.
A instabilidade no frete marítimo também coloca em alerta operadores logísticos globais, que tentam adaptar seus fluxos para outras rotas menos congestionadas. Ainda assim, o eixo Ásia–Estados Unidos continua sendo essencial para o comércio global, e nenhuma alternativa atual é capaz de absorver a mesma demanda.
O governo chinês monitora o impacto dessas medidas na indústria de exportação, que representa cerca de 18% do PIB do país. Em resposta, Pequim adotou medidas de estímulo a empresas exportadoras e sinalizou com pacotes de financiamento logístico subsidiado, para mitigar os efeitos da alta dos custos de envio.
Nos bastidores, diplomatas de ambos os países ainda mantêm canais abertos de negociação. Contudo, a pressão eleitoral nos EUA, com a proximidade da campanha presidencial, tem levado Trump a adotar um discurso mais rígido com relação à China, alimentando a retórica protecionista e dificultando avanços rápidos nos entendimentos comerciais.
Por outro lado, a situação atual pode beneficiar outras nações exportadoras. Países como Vietnã, México, Índia e Indonésia vêm se posicionando como alternativas logísticas e industriais à China, atraindo empresas que buscam diversificar suas cadeias de produção para escapar da guerra comercial.
A médio prazo, o aumento dos custos de frete entre China e EUA poderá alterar a geografia do comércio internacional. Com tarifas elevadas e logística pressionada, o modelo de produção globalizada pode sofrer novas transformações, com regionalização e relocalização de fábricas mais próximas aos centros consumidores.
Para os exportadores chineses, no entanto, o desafio imediato é garantir que os produtos já encomendados cheguem aos destinos antes que novas taxas entrem em vigor. A expectativa do setor é que o atual pico de demanda se mantenha ao longo das próximas semanas, ao menos até que haja maior clareza sobre os próximos passos da política tarifária norte-americana.
Em um mundo onde o comércio internacional continua sendo o pilar das economias modernas, a guerra de tarifas entre duas das maiores potências do planeta ameaça reconfigurar as relações logísticas globais, com reflexos diretos no preço final dos produtos e no equilíbrio das balanças comerciais.
